Você poderia entender o conceito de uma saída como uma declaração provando a existência de uma entrada. Para você morrer, você precisa ter vivido. Para você se sentir machucado, você precisa ser machucado. Mas não leva nenhum escritor sabichão por aí pra notar que, por exemplo, se nós estamos falando da entrada de um quarto de uma casa, na maioria das vezes a entrada do quarto também é a saída. Isso faz a saída não mais ser apenas uma declaração provando a existência de uma entrada, pois isso faz com que a saída apenas exista porque existe uma entrada. Eu me vejo às vezes esquecendo isso muitas vezes; eu entro em uma situação que eu sinto que eu não consigo escapar, mesmo que todo quarto precise de uma saída. Se eu entrei, eu posso voltar para o lado de fora. Porém, no momento em que esse texto mole foi escrito, eu me encontro em um quarto do qual eu não consigo sair. É um quarto vazio com uma cadeira bem no meio e algumas das minhas músicas favoritas que ouço através de um velho iPod que meu amigo achou em um brechó e me deu. As paredes não são perfeitamente brancas. Já que não tem nada pra se fazer enquanto ouço a música, as imperfeições das paredes começam a saltar mais cada vez mais que passo tempo com elas. Cada rachadura, cada parte mal pintada já foi minuciosamente examinada e dada um nome.
O quarto tem uma janela. Eu vejo várias coisas por essa janela. A vista fica cada vez pior toda vez que eu olho por ela, mas a janela, esse acidente de carro formidável, sempre me puxa de volta quando a pintura começa a ser uma visão velha. Uma vez, eu me vi como uma criança, parado num canto olhando os garotos e garotas brincando no recreio. Eu me lembro de me sentir sozinho desde que eu teimei de ter uma consciência, mas a sensação de ser um alienígena não veio naquele momento. Eu apenas precisava estar longe deles. Eu não sei se consigo explicar o porquê, eu apenas não conseguia achar a entrada daquele quarto. Do quarto de cada uma daquelas crianças. Talvez eu a tenha escondido de mim mesmo, ou talvez fosse a janela, estreita demais, escondendo ela da minha visão, já que mesmo agora eu não consigo ver aquela maldita porta.
De qualquer forma, eu vi outras coisas. Eu vi uma garotinha, acho que o nome dela era Katia. Ela tinha cabelo preto e curto, devia ter não mais que 8 anos. Não lembro do rosto dela, mas de uma certa forma ele se repetiu algumas vezes na minha vida, já que foi a primeira vez que eu senti que havia a entrada de um quarto que eu precisava achar de toda forma que conseguisse. A verdade, no entanto, é que eu minto. Eu nunca minto, na verdade, apenas omito a verdade; me diverte ver até onde consigo falar a verdade sem que tenha que mudar de assunto. Enfim, eu digo que menti agora, porque pra mim não faz sentido. Esses rostos que se repetem e se espelham no rosto de Katia pra mim eram portas que eu precisava achar, mas não tinha qualquer urgência. Era um caso de vida ou morte onde eu, cegamente, escolhia a morte de forma facílima. Eu não sei onde isso começou, por isso volto a olhar para Katia. Talvez se eu achasse sua porta isso tornaria mais fácil de achar as outras portas que apareceram depois em minha vida, mas como eu poderia achar a entrada de um quarto tão especial enquanto eu não conseguia entrar em qualquer outro, por mais moribundo que fosse? A verdade é que eu não achava nenhuma porta pois, talvez, eu já estivesse nesse quarto que me encontro desde então. Ou pelo menos, sempre volto a ele quando outra Katia aparece. Ou talvez sejam quartos diferentes, mesmo que eu possa sempre jurar que a rachadura Carlinhos e a parte-mal-pintada-chamada-Roberto, das quais nomeei em algum acesso de tédio anterior, já me foram vistas antes. Os rostos de todas elas parecem tão distantes quanto a janela consegue fazer parecer; eu vejo o quarto que me encontro girando em torno delas como uma grande fantasma, não sendo notada, apenas esquecida.
Nesse redemoinho, meu senso fica tonto, o próximo parece longe e o longe parece perto. Não digo em distância física, no entanto. Ou talvez diga, pois não consigo me decidir se faz qualquer diferença. As garotas ao meu lado, das quais eu não me declarava e não me esforçava para entrar em seus quartos, poderiam estar em qualquer canto do mundo. No entanto devo dizer que, apesar do esforço para achar a porta não existir, o desejo de achar sempre existiu. Infelizmente minhas pernas eram fracas; elas não conseguiam se mover aos meus desejos, apenas aos meus confortos. Tudo era longe demais para o meu fôlego, todas as mãos que eu tocava eram, de suas formas únicas e formidáveis, inalcançáveis. Todo leito que eu me deitava era minha casa. Já me deitei no chão, em uma cama de prego… Mas nunca em um abraço. Eu tive medo. Eu gostava de imaginar, no entanto, como deveria ser o quarto dessas pessoas. Aposto que havia uma cama neles. Elas não seriam tão lindas e teriam apenas uma cadeira como eu, a cama deveria ter espaço o suficiente para duas pessoas. Engraçado dizer isso, mas eu não me imaginava fazendo nada naquelas camas além de contar histórias, rir e dormir agarrado. Eu não conseguia. E eu entendo o porquê, pois está conectado diretamente com a razão das minhas pernas serem tão fracas para procurar tais portas.
Eu não conseguia procurar aquelas portas porque eu não conseguia admitir que era possível, que era permitido a mim ter aquele sentimento. O alienígena não poderia se aproximar de Katia, não faria sentido. O que posso dizer? Um quarto com uma cama seria coisa demais para mim, dormindo em minha cadeira. Você tem que tomar cuidado quando sonha, quando cria esperanças, quando espera. Toda espera vê a pedra virar areia, toda esperança vê o Sol virar noite e de todo sonho se acorda. Eu percebo que não queria que nenhuma delas entrasse em meu quarto, mesmo que eu quisesse entrar no delas. Elas poderiam ter algo de diferente, enquanto eu sabia a pobreza de minha situação. No entanto, elas sempre entravam. Nunca gostavam da vista; o Carlinhos, o Roberto, as músicas… Não tem muito o que fazer, além de que deve assustar ver seu reflexo tão forte pela única janela do quarto. Elas conseguem sair e me trancam do lado de dentro, querendo ou não, me banindo para assisti-las pela janela sempre que meu coração quiser se machucar. Todas pareciam muito reais, mas não tanto quanto a última parecia.
Enquanto escrevo isso, o último rosto que apareceu em Katia era o mais lindo desde então. Ele entrava e saía do meu quarto, me deixando curioso pra saber se queria ficar ou não, mesmo dadas suas circunstâncias. O rosto era amigo de Carlinhos e primo distante de Roberto. O rosto conhecia as músicas, pois elas foram escritas por outros compositores para o rosto. O rosto era um trabalho, um uniforme colorido e escamas de sereia, com sua voz de corvo e cabelos formidáveis. Foi desenhado especificamente para mim, creio eu, pelo mesmo arquiteto que desenhou este quarto do qual fui trancado, pois era meu exemplo de algo real, não uma cópia morta de uma sensação antiga, não mais uma escultura para que eu orasse. Não parecia mais Katia, parecia algo novo. Por que, então, eu ainda a vejo apenas pela janela? Por que não consigo entrar em seu quarto? Por que ela não fica no meu? A verdade, lembro-te que não minto, é que eu sou inimigo da esperança. Eu creio que se eu for sentir algo tão bom e que não posso ter, eu apenas não deveria ter sentido isso para começo de conversa. Eu não vejo utilidade em um sentimento em vão, e os que discordam de mim podem discordar de seus quartos em castelos altos, romantizando cada dor que sentem como se fosse preciosa, como se fosse a prova de que estivessem vivos, enquanto pra mim é a prova de que vão morrer. No entanto, lembro-te, eu minto. Mas apenas minto quando algo não faz sentido pra mim, pois há uma verdade que deveria ser e não é. A verdade, e a que mais me dói em todo esse texto, é que eu não ligaria de ficar o resto de minha eternidade preso nesse quarto se ela continuasse a me visitar todas essas vezes.

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