[br] o dia seguinte

5–8 minutos

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“I’m moving,” he said

“Where?” asked Margot

“Two weeks away,” he said

“Mitchell, where is that?” asked Margot

“It’s everywhere I will be after I walk for two weeks,” said Mitchell, “I have lived in the same place for a long time, it is time for me to go someplace else”

“No,” said Margot, “You have only lived next door for fifteen years”

“Sixteen,” said Mitchell

“Fifteen, sixteen. What’s the difference?” said Margot, “I want you to stay next door forever”

“I can’t,” said Mitchell, ” I do not want to go wake up in the same old bed and eat breakfast in the same old kitchen. Every room in my house is the same old room, because I have lived there too long”

(…)

“And you look at me and think, same old face, same old tail, same old scales, same old walk, same old talk,” said Margot

“No,” said Mitchell, “I like your face, tail, scales, walk and talk. I like you”

“I like, like, like you”

“I like, like, like you too,” said Mitchell

He walked through the door

“I must pack,” he said”

“A Spindle, a Darkness, a Fever, and a Necklace” by Bright Eyes (excerpt from “Mitchell Is Moving” by Marjorie Weinman Sharmat)

A vida é o que nos é mais precioso, e o tempo é o que há de mais precioso na vida.

Eu me lembro, há muito tempo atrás eu era fã de Doctor Who. Em um episódio, o Doctor do Capaldi está de luto por alguém e solta uma frase muito boa. “É engraçado, o dia que você perde alguém não é o pior dia – pelo menos você tem algo pra fazer – são todos os dias que a pessoa permanece morta.” Eu me lembrei dessa frase quando minha mãe morreu. O dia que ela morreu foi de extrema tristeza, mas acordar nos outros dias e perceber que essa seria a vida agora era a pior sensação possível. Enfim, eu não vim falar sobre a morte de minha mãe aqui. Vim falar dos momentos que cheguei perto da minha.

Há uma tragicidade na rotina quando você não consegue parar e perceber a beleza do mundo e o tempo do qual você nasceu. Esqueça dos noticiários, o mundo que parece sempre estar acabando. Olhe pra sua própria mão e os movimentos que ela pode fazer. Perceba que qualquer quarto que você esteja pode ser qualquer quarto do mundo; você pode enfeitar esse espaço quadricular de qualquer modo que quiser. O mesmo pode ser dito sobre seu corpo. Ele pode ser de qualquer dimensão se o esforço suficiente for colocado contra ele. Você pode ficar mais altinha se usar um sapato maior. Tudo é deturpado pela potencial visão do outro, pois o outro é o problema do mundo.

Enfim, sobre a capacidade de mudança do quarto, o mesmo também pode ser dito sobre sua cabeça. Quer dizer, pra algumas pessoas. Eu sinto que creio em coisas sobre mim mesmo que não parecem mudar nunca. Elas precisam do outro para serem contrariadas ou confirmadas e, como toda crença religiosa, a ausência do todo poderoso que gira em torno do credo apenas fortalece a sua existência. E por muitas vezes eu alcanço essa mão ao vazio e não pego nada. Completa fumaça. É engraçado, o mundo tem muitos outros, mas eu sempre me senti um outro para o mundo. Algo em mim me afasta de querer remediar meu coração, eu me sinto mais amargo a cada dia que se passa. Todas as vezes que eu busco no outro a cura disso, eu percebo que eu não estou no mesmo plano que ninguém que anda ao meu lado. Eu caço a fumaça que sai dos fantasmas dessas pessoas e elas me assombram quando gostam de mim. Pessoas que eu, secretamente, não acho tão boas assim já que fazem isso comigo. Mas eu tento dizer que algo nisso é culpa minha. É assim que vivo: uma faca aparece nas minhas costas e a única coisa que está na minha cabeça é a tentativa de se lembrar quando eu pus a faca ali. Mas eu não conseguiria enfiar ela lá. A faca não é minha.

Mas é importante saber: o outro não tem todas as respostas do mundo. Às vezes o outro mal te diz algo, mas ele é essencial na busca para entender a si mesmo. O problema é quando você acha que só vai se achar se estiver se procurando em outra pessoa; não é lá que você vai estar. Eu sei disso. Mas eu me sinto como um detetive perdido. Visitei a cena do crime várias vezes e não achei nada. A resposta pro assassinato está em outro lugar. Essa metáfora não funciona muito bem, mas o que quero dizer é que já me busquei em mim por tempo demais. Sinto que só posso estar em uma outra pessoa. Burrice. É uma falácia, porque sei que eu não me mudei de corpo. Eu apenas me escondo em algum canto, embaixo do intestino ou atrás do crânio, toda vez que sei que estou me procurando.

Mas e o coração? Meu coração tem tantas pessoas, e no coração de algumas delas eu estou também. Seria esse o eu que eu procuro? Eu acho que sim. Eu me sinto muito bem quando me sinto amado. É estranho saber que alguém quer o meu bem, que alguém pensa e se lembra de mim quando eu não estou por perto da pessoa. Eu quero saber como é esse meu eu no seu coração. Talvez saber por que você me ama me ajudaria a tentar entender por que eu deveria me amar. Mas eu não acho que o amor que eu procuro também seja qualquer água para se encher um cálice. Eu não sei de sua consistência, mas ele não é algo que eu já tive, então sei diferenciá-lo do que já tenho. Mesmo assim, é mágico pensar que você é um querido para alguém.

Quando nós tratamos de pensamentos bestas de suicídio, é importante perceber algo. Se lembra da frase de Capaldi sobre o luto? Ela é o inverso se você pensa no seu próprio suicídio. Lembro de ler sobre isso em alguns textos, também. O fato de que você fica tão… Vidrado com a ideia de sumir e realmente fazer isso, mas você vai dormir e… O dia seguinte acontece. Você ri, você vê algo novo que você gosta, você se encontra com pessoas boas que não o fazem mal. Se você pensa em partir, saiba de uma coisa. Há algo extremamente mágico no dia seguinte. O dia após você desistir de tentar aquilo. O dia em que o mundo não foi pra lugar nenhum, nem você. Tudo ainda está do jeito que você deixou, e você pode viver sua vida bobinha em paz por mais um dia. O dia seguinte pode ser daqui há um mês se sua vida estiver ruim. Pode demorar mais, também. Mas você sabe quando ele chega. É um dia em que você vê, por exemplo, gansinhos muito lindos se beijando e nadando numa lagoa. Que ordem há nesse mundo pra tanta beleza, você pensa. Como é bom poder ver isso, respirar esse ar, andar por essa grama. Como é bom ainda ter um coração pra você poder machucar de novo.

“And they were singing
Don’t you do what you’ve wanted to
Yeah, don’t destroy yourself
Like those cowards do
And maybe the sun keeps coming up
Because it has gotten used to you
And your constant need for proof’”

A Spindle, a Darkness, a Fever, and a Necklace by Bright Eyes

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