[br] “O Ladrão” e meu medo de fantasmas

“So we trade liquor for blood in an attempt to tip the scales
I think you lost what you loved in that mess of details
They seemed so important at the time
But now you can’t even recall
Any of the names, faces, or lines
It is more the feeling of it all”

“An Attempt To Tip The Scales” by Bright Eyes

Voltamos à nossa programação normal. Eu tomei a decisão de apenas postar textos que escrevi há uns meses atrás por aqui até o lançamento do filme (embora acho que já tenha quebrado essa regra em algum desses textos passados), já que todos falam do mesmo assunto, mas o último foi algo mais recente. Eu gostei dele, mesmo sendo meio diferente do que foi postado anteriormente aqui em questão de assunto, então postei. Agora podemos voltar a falar diretamente sobre o mesmo assunto que estive falando sobre durante esse tempo todo.

O que escrevo agora é recente. Não é um texto antigo, eu estou escrevendo isso aqui um dia depois do terceiro dia de gravações do meu filme “O Ladrão”. Esse texto era pra ter sido escrito depois da segunda diária, mas eu estava muito cansado e depressivo pra escrever sobre esse assunto. Mas trago boas notícias, pois o motivo é um pouco diferente.

Após a segunda diária, feita pra terminarmos as gravações de todas as cenas externas que faltaram, a minha querida Aninha (diretora de fotografia do filme) me ofereceu uma carona no carro dela pra Ilha, já que ela é da Zona Norte também e tinha coisas a serem resolvidas por lá. Eu fiquei muito animado quando ela falou isso. A Aninha foi alguém de quem eu sempre gostei, mas nunca havíamos tido muito tempo pra conversar, então esse filme e essa carona iria nos ajudar muito. Mas talvez pra falar sobre ela eu precisa dar dois passos pra trás.

A oportunidade de fazer esse filme, como disse alguns posts atrás, veio da matéria de Direção de Arte do curso de Cinema e Audiovisual da minha faculdade. Pela primeira vez em algum tempo, eu não estava junto dos meus amigos ou de muitos conhecidos meus em uma matéria, porque os períodos foram divididos um pouco aleatoriamente e eu caí com um professor e eles com uma outra. Meu amigo Haroldo Mourão (diretor de arte do filme) era a única pessoa que eu realmente conversava naquela matéria, então rapidamente nos unimos. A Aninha veio depois e, por último, o Heron (produtor do filme). A equipe constitui nessas quatro pessoas mais a atriz Katarina. A Aninha é uma pessoa que trabalha especificamente mexendo com câmeras e realizando fotografias, então fiquei muito feliz de ter ela em nosso time. Me lembro das duas primeiras diárias; foi como um encontro feito pelos céus. Ela me entendia muito bem quando eu vociferava alguma ideia de plano, e a confiança que ela tinha na câmera me dava uma enorme confiança em poder inventar qualquer plano que quiséssemos. Eu também me divertia muito falando pra ela fazer um plano de tal forma e ela me encarava por alguns segundos tentando entender o que raios eu realmente queria. Trabalhar com ela foi certamente o ápice desse projeto mesmo que, infelizmente, ela não pudesse estar presente nas duas últimas diárias porque ela tinha uma viagem importante a ser feita. O dedo dela certamente fez uma enorme falta na diária passada, mas confio na equipe que conseguiremos fazer algo satisfatório mesmo assim.

Na volta pra casa da segunda diária, no carro dela, conversamos muito sobre o assunto de amores passados. Ela se interessou pelo assunto do filme e eu me interessei nas histórias que ela contava. Conversar com ela sobre isso me inspirou a pensar um pouco mais nisso tudo. Nos amores e o que levamos deles quando eles acabam. Em sobre como seguir em frente, vivendo entre tantos fantasmas. Eu me impedi de comentar muito sobre meu estado mental atual nesse site em meio a tantos textos antigos, mas é precisamente porque ele flutua muito. Alguns dias são mais difíceis que outros, embora eu esteja melhor agora.

O que aconteceu foi que eu estava superando isso normalmente até a confusão toda acontecer e de repente minha cabeça entrou em algum modo de pânico e eu me senti preso resolvendo isso. Tudo bem, eu estava a caminho de superar quando isso acabou, também. Mas a existência do filme me mantém preso no mesmo lugar ainda. Foi algo que eu escrevi enquanto eu ainda sofria muito com isso (havia acabado de acontecer), mas o que eu não parei pra considerar é que o processo de realização de um filme demora tanto que eu poderia ter que gravar e editar o filme tanto tempo depois que eu já poderia ter superado o seu problema-chave a essa altura. É um pouco diferente das músicas ou textos que eu escrevo, pois neles os sentimentos podem acabar assim que eu me afasto do teclado. Com um filme é diferente; você estava machucado com algo há meses atrás e tem que reviver tudo isso quase que diariamente enquanto esse filme ainda não é terminado. Enquanto você dirige, enquanto você edita, enquanto você organiza a pré-produção. O assunto não é permitido morrer. É uma prisão que eu criei sem perceber.

Existem duas partes positivas disso, ou melhor, partes poderia-ser-bem-pior. Uma é que o roteiro tecnicamente não é sobre a pessoa. Eu não gostaria de discutir sobre o filme sem que ele tenha saído ainda, mas acho que o tema geral dele, mesmo que escondido para um potencial desinteressado, é na verdade algo que me interessa muito e algo que eu certamente voltarei a sofrer sobre no futuro. Acho que seria muito mais estranho pra mim se o roteiro tivesse uma corda umbilical ligada à ela, mas eu escrevi ele com um buraco em seu centro, intencionalmente. Uma é que o roteiro original, escrito numa noite às pressas e muito sentimental, era muito mais relacionado à pessoa e era muito mais pessoal e… horrível, honestamente. A história era diferente, mesmo com a conversa se mantendo, mas agora havia uma briga no final do roteiro. Era completamente amarga a sensação em minha boca após escrever ele, era confrontacional e odioso, não porque eu me sentia assim mas mais porque eu achava que precisava ser assim. Eu não cheguei a mostrar ninguém da equipe esse roteiro e apaguei ele. A versão final foi muito mais fácil e prazerosa de ser escrita. Não há mais brigas; já que eu nunca briguei com ela isso não faria sentido. Há apenas ideias erradas e pessoas penosas, como sempre deveria ter sido. Embora algumas partes do roteiro final pareçam confrontacionais, elas só seriam com o pensamento de que eu a odeio. Isso não é verdade, mas eu não a amo e não nos falamos mais. Também não acho que deveríamos ser próximos mais. Mas o respeito que você deve ter com alguém assim enquanto você escreve sobre a pessoa; é sobre isso. Transicionar, transformar e deformar uma pessoa tangível em um conceito, em um personagem e perder a pessoa real no processo. Usar pedaços da pessoa real como matéria prima pra moldar uma escultura e o que você esculpir ter sua própria vida e não ter mais relação com os itens que os fizeram nascer, como o navio de Teseu. Você encontra Magritte nisso também, “isto não é um cachimbo” e coisa e tal.

Acho que falei demais, mas ao mesmo tempo, entendo ser incompreensível sem minhas palavras. E ainda é, tenho certeza. Mas não há paz maior pra mim em saber que o filme já está perto de acabar e que, também, semestre que vem eu me formo na faculdade. Tenho tantos planos!! Quero intensificar as aulas de teclado e violão, quero tentar realizar projetos audiovisuais também. Mas há mudanças nesse site a serem feitas, também.

A ideia era postar os textos que eu escrevi há uns meses enquanto o filme não saía. O filme sairia e eu começaria a realmente escrever sobre coisas diferentes (e, espero, mais positivas) por aqui. Mas eu não sinto mais vontade de postar os textos restantes. Talvez isso mude (já que são poucos), mas eu me sinto mais preparado em abandonar esse tema agora. Também gosto de imaginar esse canto como um recanto pros comentários que eu querer explicitar sobre os pontos das minhas futuras pesquisas pros meus futuros projetos. Não só isso, mas postar letras de músicas aqui, também. Não ando escrevendo textos recentemente fora o do Cocytus, mas escrevo muitas músicas. Escrevi uma anteontem sobre estar entre amigos numa cachoeira, a música mais fofa que já escrevi!!

Mas é importante seguir em frente. É preciso uma certa maluquice pra se abrir os olhos nesse mundo e ver toda essa incansável beleza a nossa volta. Sempre rodeado de fantasmas, mas é a vida. Nunca realmente sozinho, sempre coberto de medo. É a vida.

“Radio Host: How about this Arienette, how does she fit in to all of this?

Conor: I’d prefer not to talk about it, in case she’s listening.

Radio Host: Oh, I’m sorry, I didn’t realize she was a real person.

Conor: She’s not. I made her up.

Radio Host: Oh, so she’s not real?

Conor: Just as real as you or I.

Radio Host: I don’t think I understand.

Conor: Neither do I.”

“Fake Interview (Excerpt from “An Attempt To Tip The Scales”) by Bright Eyes

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