[br] minha bebê idosa

6–9 minutos

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Ben, the two of us need look no more
We both found what we were looking for
With a friend to call my own
I’ll never be alone
And you, my friend, will see
You’ve got a friend in me
(You’ve got a friend in me)”

“Ben” by Michael Jackson

Mag nasceu em 2008. Ela fez 16 anos há alguns dias atrás, mas quando encontramos ela, ela era um pinguinho, uma coisinha minúscula e atribulada. Lembro de como achamos um nome pra ela. Minha mãe pesquisou “nomes para bebês” ou “nomes para cachorros”, não lembro. A lista era enorme, mas minha mãe adorou o nome “Mag”. Com o passar dos anos, ela ganharia vários apelidos. Tereza Cristina, Carmen Lúcia, Coragem (por ela ser muito medrosa)… É tão engraçado: pra criação desse post, eu procurei fotos do dia em que adotamos ela. Minha memória é horrível, então não lembro muito desse dia ou de muitos momentos dela pequena. Mas ver essas fotos é a coisa mais engraçada do mundo porque ela continua tendo a mesma carinha. Ela envelheceu bastante, mas ela tem uma carinha de sapeca que nunca saiu dela. Meu coração se aqueceu muito. Eu gostaria de poder voltar pra esse dia, uma só vez. Ver ela cheia de energia de novo, mordendo seu ossinho e rolando no velho tapete.

Ela adorava a chuva. Minha vó sempre se lembra disso. Ela corria pelo terraço quando chovia e tentava beber a água que caía do céu. Minha mãe também se lembraria que quando ela ia regar as suas plantas com a mangueira, Mag corria por entre os vasos e tentava pegar o jato de água com a boca. Até latia contra ele. Com o tempo, ela se tornou medrosa. Não gostava de chuva ou trovões. Nunca gostou, mas passou a detestar com todas as suas forças um banho. No começo de sua vida, ela não deixava ninguém que não fosse meu pai, minha mãe ou minha vó dar banho nela. Isso servia pra quase tudo, na verdade. Ela rosnava e tentava morder se eu ou meus irmãos tentasse alguma gracinha com ela, mas nossos seniôres podiam fazer tudo com ela. Ela tinha o hábito de rosnar muito pra quase qualquer coisa. Hoje em dia, ela não rosna ou morde. Ela late ainda. Na verdade, ela morde sim, mas é muito engraçado. Às vezes, se você encosta na barriguinha dela de modo estranho ela instintivamente tenta morder sua mão, mas o ódio dessa diabinha já saiu todo do corpo então ela só dá uma mordiscadinha, uma encostada de dentes. É a coisa mais fofa.

Nossos familiares e alguns amigos com certeza discordariam se eu dissesse que ela era um anjo quando mais nova. Eu sinto que não existem muitas famílias que teriam paciência com ela. Ela latia pra qualquer visita, odiava crianças e já tentou morder algumas tias minhas. Ela já me mordeu algumas vezes quando eu era criança. Eu ficava muito zangado. Eu dava muito amor pra ela, mas ela parecia só conseguir amar meus pais e minha vó. Eu não entendia. Enfim, hoje em dia ela não late pra visitas mais. Na verdade, ela nem reage porque muitas vezes ela nem percebe a presença da visita. Ela está cega e surda, coisas da idade. Antigamente, tínhamos que trancar ela no quarto com alguém quando chamávamos alguém pra trocar nosso gás de cozinha. Ela latia o tempo todo, sempre odiou se sentir trancada. Hoje, o moço vem e sai e ela nem acorda de seu sono, não importa se ele passar do lado dela. Algo curioso que notei é que eu estou tão acostumado com ela sendo cega e surda que quando eu vejo um animal (geralmente cachorros, mas gatos também) reagindo a sons ou prestando atenção nos meus movimentos eu acho a coisa mais confusa do mundo. “Como raios ele ouviu esse som?” eu me pergunto quando o gato do meu amigo se assusta com um bater de palmas. Enquanto isso, há alguns anos atrás, todos da casa sabiam que na hora do parabéns, as palmas e a voz alta faziam ela latir e pular bastante.

Ela era muito grudada à minha mãe. Minha mãe costumava dizer que Mag “sentia quando ela não estava bem”. Elas se amavam muito, e o amor era distribuído pelo dia inteiro. Minha cachorra acordava (chegava até a latir) minha mãe de manhã cedinho pra que as duas tomassem café da manhã juntas. Minha mãe dava todas as refeições dela e, quando chegava a noite, minha cachorrinha gostava de dormir no quarto com a minha mãe. Ela até tentava subir na cama pra que elas dormissem juntas, coisa que nós não deixávamos ela fazer sempre (digamos que ela é uma mijona safada). Minha mãe tinha razão, pois nos momentos em que ela estava pior a Mag parecia inseparável dela. O amor entre as duas era puro, eterno e imensurável.

Mas minha mãe faleceu, fazem 6 anos daqui há poucos dias. Mag não entendeu muito bem, porque ela não sabe o que é morte. Acho que ela achou que sua melhor amiga simplesmente a abandonou. Ela parecia perdida e mais chateada. Ela grudou rapidamente à minha vó. Elas se tornaram inseparáveis, mas minha vó tem uma forma diferente de amar. Ela não gosta do cheiro forte de cachorro que Mag tem e acha que ela nos últimos anos vem dando trabalho demais. Mas Mag não se importa, ela adora minha vó. A parte triste acontece toda vez que minha vó sai, não importa o quão breve seja a saída. Mag começa a chorar e latir muito, ela fica muito deprimida achando que foi abandonada novamente. É engraçado; até hoje, ela estando surda e cega, de alguma forma ela sente a ausência da minha vó quando ela sai. Ela chora, late, fica tão agitada às vezes que nem consegue dormir. Não importa quem mais esteja na casa, ela não quer perder mais uma melhor amiga.

Antigamente, eu era dito pra não deixar ela me lamber. Ela tentava, mas ficava chateada quando eu afastava meu rosto. Depois que minha mãe se foi, eu soube de uma coisa: eu sentirei muita saudade dessa outra idosa quando ela se for. Hoje em dia, eu adoro receber os “lambeijos” dela (lembro que ela tinha um Orkut na época e era assim que ela terminava os depoimentos dela). Eu gosto de pegar ela quando ela acabou de acordar de uma das sonecas de idosa dela. Ela parece toda confusa, olhando pro nada, lembrando que existe. E é nessas horas que você pode encaixar vários beijinhos nela e ela nem vai reclamar. Mas a melhor parte é quando ela se surpreende com você, ou quando ela não sente alguém perto dela há um tempo. Ela te enche de beijinhos! É nesses momentos que eu discordo do meu eu do passado. Ela me ama, ela amou a todos nós aqui. Você percebe nesses momentos. Ou quando ela se sente mais calma quando você faz carinho nela quando ela está sentindo muita dor. Ou quando ela virava a barriguinha dela pra cima pra dormir, mostrando como ela confiava na gente (só não tente tocar na barriguinha, por mais gostosinha que pareça, ou você perde um dedo).

Ela adquiriu um tumor há uns anos atrás. Câncer de mama. Quando descobrimos, ele já era uma metástase. Engraçado. Ela provavelmente vai morrer da mesma forma que minha mãe morreu, exatamente da mesma doença. Acho que ela gostaria muito que a melhor amiga dela estivesse com ela agora como ela esteve quando minha mãe passou pela mesma coisa. Ela agora anda muito lento, parecendo uma filhote. Não tem muita força nas pernas, as mesmas que costumavam correr mais rápido que um foguete pra pegar bolas que fossem jogadas por nós. Nos últimos dias, perto do aniversário de 16 anos dela, ela não tem tido noites muito boas. Ela deve estar sentindo muita dor, ela chora um pouco no meio da noite, começa a latir. Respira muito pesado. Vamos levar ela no veterinário essa semana.

Não consigo imaginar um mundo onde eu não tenha como beijar a cabecinha dela. Queria que ela pudesse viver pra sempre, ou que eu pudesse dar de meus dias na Terra à ela e fazer ela viver mais tempo. Me sinto perdido de novo. Minha melhor amiga está sofrendo.

“Ben, most people would turn you away
I don’t listen to a word they say
They don’t see you as I do
I wish they would try to
I’m sure they’d think again
If they had a friend like Ben”

“Ben” by Michael Jackson

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