existem apenas duas coisas que eu queria que fossem notadas sobre meus pensamentos neste dia.
Há alguns dias eu assisti o filme Lawrence da Arábia, de David Lean, famoso por ser considerado um dos melhores filmes que já existiram. O filme tem 3 horas e 47 minutos, acredito eu. Praticamente quatro horas. É loucura dizer que eu queria rever ele imediatamente – algo tão colossal e tão próximo de quando assistí-lo por último? Provavelmente é a melhor coisa que eu já vi e um dos filmes mais únicos existentes. Sempre que vejo diretores renomados falando sobre o que acham do personagem de Lawrence, parece que eles tiram de sua alma como cebola mais uma camada que para mim estava coberta pela sombra da qualidade quase superhumana da narrativa presente no filme. Poderia, também, falar por horas sobre ele, mesmo que não com a percepção cheia de experiência de pessoas como Spielberg e Scorsese. Digo, mesmo assim, que é uma aula sobre a alma humana e um espetáculo visual que pode se considerar alérgico à pouquidão, à baixeza de substancialidade.
Em adição, eu estou lendo “Um Teto Todo Seu”, da Virginia Woolf. Há um tempo atrás eu tinha o interesse em escrever um roteiro para um filme onde um casal iria brigar por toda a sua extensão. A ideia era que o suco que saísse quando você espremesse as palavras fosse algo geracional, com uma fluidez entre o raso e o profundo. Eu não pretendo continuar a pesquisa que fiz para esse curta por um bom tempo, mas li alguns livros enquanto separava tópicos interessantes sobre relacionamentos heterossexuais. Um deles foi “Tudo Sobre o Amor” da Bell Hooks. Lendo ele, me aproximei muito dessa seção da literatura feminista e me interessei muito pela ideia da representatividade feminina na ficção e da visão que um sexo possui sobre o outro ao que condiz ao que sobrevive na arte. Aqui entra Um Teto Todo Seu, uma série de ensaios de Virginia Woolf exatamente sobre esses assuntos, escritos próximos de 1929. Ainda não terminei. Estou ouvindo o audiolivro narrado pela Clarice Falcão, uma dessas pessoas que amo muito sem nunca ter conhecido, e me sinto preso demais a tudo o que ela narra. Talvez acabe ainda hoje ou amanhã.
É de conhecimento de ninguém que eu planejo escrever um álbum chamado “A Woman Mirror”, onde o conceito dele é explorar todas as faces femininas que eu encaro e atuo por cima em minha vida; uma análise preocupada de como o feminino me afeta, como eu reajo ao feminino e como eu sou o feminino como todo homem guarda uma mulher em si e vice-versa. Existem algumas músicas já escritas para esse álbum (A Kindred Sex e Heather, e acho que Brainache talvez entre lá), mas a maioria eu planejo escrever no futuro, depois que a devida meditação sobre o assunto realmente ocorra. Enfim, ignorando o aspecto egocêntrico dessa escrita masculina que acabo de descrever, é de minha surpresa descobrir que a Virginia Woolf, em 1929, realizou exatamente a mesma metáfora que eu nesses ensaios, porém vendo-a pela perspectiva da reflexão invés do refletido. Ela me deu uma perspectiva sobre esse conceito que verdadeiramente eu considero essencial haver em algum momento do álbum, se não espalhado aos poucos por ele todo. É algo que, como um homem, é difícil de ser lido. Mas mais difícil ainda não é só negar, mas sim viver isso, como vivem essas reflexões, as musas castigadas pelos poetas. Deixo aqui uma citação breve dela, para que me entendam melhor:
As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. Sem esse poder, provavelmente a terra ainda seria pântanos e selvas. As glórias de todas as nossas guerras seriam desconhecidas. Estaríamos ainda rabiscando o contorno de gamos em restos de ossos ovinos e trocando sílex por pele de cordeiro ou qualquer ornamento simples que despertasse nosso gosto sem sofisticação. Super-Homens e Dedos do Destino nunca teriam existido. O tsar e o cáiser nunca teriam usado coroa nem a teriam perdido. Seja qual for o seu uso nas sociedades civilizadas, os espelhos são essenciais para todas as ações violentas e heroicas. É por isso que tanto Napoleão quanto Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem inferiores, eles deixariam de crescer. Isso explica, em parte, a necessidade que as mulheres representam para os homens. E serve para explicar como eles ficam incomodados com as críticas delas; como é impossível para elas dizerem que tal livro é ruim, tal quadro é medíocre, ou o que quer que seja, sem infligir muito mais tormento e despertar muito mais raiva do que um homem teria causado ao fazer a mesma crítica. Pois se ela resolver falar a verdade, a figura refletida no espelho encolherá; sua disposição para a vida diminuirá. Como ele continuará a fazer julgamentos, civilizar nativos, criar leis, escrever livros, vestir-se bem e discursar em banquetes, a menos que consiga ver a si mesmo no café da manhã e no jantar com pelo menos o dobro do tamanho que realmente tem? Então refleti, partindo meu pão e mexendo o café e olhando de vez em quando para as pessoas na rua. A alegoria do espelho é de importância suprema porque recarrega a vitalidade, estimula o sistema nervoso. Exclua isso e o homem morre, como o viciado em cocaína quando privado da droga. Sob o encanto daquela ilusão, pensei, olhando pela janela, metade das pessoas na calçada está andando a passos largos para o trabalho. Esses homens colocam o chapéu e vestem o casaco sob os raios agradáveis da manhã. Eles começam o dia confiantes, seguros, acreditando serem esperados para o chá na casa da senhorita Smith; dizem a si mesmos, enquanto adentram o cômodo, sou superior à metade das pessoas aqui, e é por isso que eles falam com aquela autoconfiança, aquela autoafirmação que causou consequências tão profundas na vida pública e levou a anotações tão curiosas na margem da mente privada.
Virginia Woolf. Virginia Woolf – Um teto todo seu (2019) (Locais do Kindle 552-553). Edição do Kindle.
Pra fechar, quis deixar outra citação que me destruiu. Quando quis dizer “musas castigadas pelos poetas”, isso vem da observação de Virginia Woolf e de alguns historiadores sobre um fenômeno curioso do mundo feminino e sua representação artística séculos atrás; a diferença entre as protagonistas femininas nas peças e o tratamento das mulheres na realidade. Acho muito interessante. Aqui está:
De fato, se a mulher não existisse a não ser na ficção escrita por homens, era de se imaginar que ela fosse uma pessoa da maior importância; muito variada; heroica e cruel, esplêndida e sórdida; infinitamente bela e horrenda ao extremo; tão grandiosa como um homem, para alguns até mais grandiosa. Mas isso é a mulher na ficção. Na vida real, como o professor Trevelyan apontou, ela era trancada, espancada e jogada de um lado para outro.
Assim, surge um ser muito complexo e esquisito. É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática, ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era a escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas das palavras mais inspiradas, alguns dos pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido.
Virginia Woolf. Virginia Woolf – Um teto todo seu (2019) (Locais do Kindle 640-648). Edição do Kindle.
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