Muito falo sobre minhas paixões, como um arquipélago sóbrio sufocado pela água de minha sede, mas pouco falo sobre mim. Ao que condiz à minha consciência, há pouco a ser dito. Mas existem circunstâncias exóticas sobre o corpo que assombro.
Pra começar, é um lugar apertado. Eu costumava dizer ser um quarto sem portas ou janelas, mas é um olhar ainda preso na adolescência, onde a montanha mais assustadora a ser escalada é a que exibe sua falta de razão em seu topo. Sua falta de personalidade, estilo. E esse não é o fim do mundo, pois o mundo é grande o suficiente para que se habitem seres cuja única função é observar e refletir. Não, eu digo. Eu habito o útero de minha própria pessoa, conectado pelo cordão umbilical de onde sou alimentado em meus intensos episódios de tédio e fúria. É tão apertado que preciso me encolher, e suas paredes tocam em todas as partes do meu corpo, como um caixão mole e quente por baixo de uma terra grossa que só conhece a chuva e a seca, o frio e o tempo.
Sou velho, mais velho que esse corpo, mas não trago comigo a sapiência e experiência da idade, pois não passei todas as minhas centenas de anos refletindo em coisa alguma. Eu apenas trago o cansaço dos tempos, a fadiga dos tempos, o remorso, o tédio e a imobilidade dos tempos. Poderia dizer que sou furioso, mas não sei se isso configura como realidade. Tenho fúria e ódio, mas o corpo não me acompanha sempre. Esses muros de pedra que me cercam são impossíveis de penetrar, mesmo que em minhas mãos hajam feridas abertas do tanto que as faço se encontrarem com as paredes. Meus braços e mãos, no entanto, não são minhas armas de fogo. Sou muito mais sórdido sem elas. Eu não sou uma criatura benigna. Pode-se dizer que sou um câncer estacionário e entediado.
O corpo, no entanto, é curioso. Eu quase nunca o vejo por fora, mas existe algo nele que parece fazer o terreno em volta ser habitável, como se ele existisse para fazer parte do mundo e não para apenas notá-lo. Sei de algumas coisas sobre a casca que habito. Sei que ela é impossível de não ser amada, mas não sei o que a faz ser assim. Pessoas circulam o corpo, tocam o corpo e consomem o corpo, mas o corpo continua virgem e estéril, e as pessoas continuam amorosas e bobas. O corpo possui a mesma arma que eu; eu a uso para destruir, ele a usa para construir. De minhas mãos ou das mãos dele, não importa. Tudo que eu destruo, ele constrói de novo. Tudo que ele constrói, eu destruo. Todas as vidas em nossa volta são drenadas de suas almas, amadas por suas fomes e postas para dormir em suas vidas camufladas.
Algumas informações que percebi após viver tanto tempo é de que o controle do corpo é dado para diferentes donos de tempos em tempos: o cérebro e o coração. Nunca falei com eles, pois eles não tem muito a ver comigo. Mas sei algumas coisas sobre eles.
O cérebro é a pior região do corpo. Se ela o governasse, ele já teria morrido. Algo aconteceu há muito tempo e hoje em dia é uma parte completamente disfuncional, constantemente engasgada em seu motivo de governo próprio como um idoso demente pilotando um avião. O cérebro não possui um pingo de maldade em si, eu sei disso. Ele apenas não deveria estar nesta posição de poder. Ele reflete, mas não pensa, entende? Ele faz do corpo uma fábrica repleta de esteiras e colisões, quando deveria ser uma árvore imóvel e tola. Ele grita e conversa. Ele fala, mas seu erro é ouvir demais; não do jeito nobre e amigo, mas do jeito medroso. É como um cachorro em que suas orelhas estão sempre pra cima, caminhando na ponta das patas, fazendo sons para se localizar dentro de um simples supermercado. É alérgico à pessoas. Talvez alérgico não seja a palavra. Pessoas são esse fluxo, essa corrente forte e impiedosa levando a lugares cada vez maiores e estridentes, mas este cérebro tem medo demais de se afogar. É silencioso como a morte.
O coração é tolo, mas tem jeito. É o recanto da paixão, uma criança irremediável. Foi criado por uma pessoa muito bondosa, que já não existe nesse mundo há muito tempo. Ao contrário do que devem ser os corpos normais, neste corpo ele é, sem saber, o maior piloto. Ele é medroso também, mas quando se machuca, ele começa a atrapalhar o trabalho do cérebro. Quando ama, ele vira nosso maior inimigo. Mas sem ele, eu não poderia nunca controlar o corpo. É apenas através de sua intensidade que eu sou digno de movimento.
Eu controlo o corpo quando o cérebro está confuso e o coração está cheio demais. Eu destruo. Destruo como forma de me alimentar. Certa vez, eu destruí tanto que vi o rosto do corpo. Foi estranha a sensação, mas mesmo estando bem próximo, estava tudo borrado. O que estava à minha frente era uma pintura destruída… Não, era um quadro onde toda a tinta havia sido jogada lá, com o resultado sendo modernista, absurdista, antagonista e alienista. Eu não conseguia ver nada do rosto, mas havia algo de belo naquele pavor. Algo que poderia me alimentar. É importante tentar adivinhar quem jogou a tinta naquele quadro branco. São anos de suas próprias mãos ou são as pessoas em sua volta que o pintam conforme seus gostos? Independente da resposta, era belo para quem quisesse que fosse belo. Era, novamente, abstrato o suficiente para dizer algo sobre você mesmo, como um teste de Rorschach pornograficamente sedutor. O quadro era o que qualquer um quisesse, o que resumia o quadro à potência da mais inútil substância e da mais intensa utilidade; tão artístico quanto um utensílio de cozinha, e nunca uma refeição. Ele atraía pro seu vórtice de forma violenta, e meu trabalho se seguia. Eu destruía quando ele piscava. Ele sabia, mas deixava. Eu destruía com minha maior arma.
A mesma arma que ele usa para construir. A mesma arma que o cérebro usa para entender os arredores, sendo cego como uma porta. A mesma arma que o coração usa como sangue, bombeando pelas veias de toda essa máquina mortífera. Era a linguagem. Mais letal que qualquer punho. Possui um alcance infinito. Através dela, eu existo. Eu destruo. Eu destruo e destruo, até que o ambiente se torne irreconhecível. O corpo se deita nos destroços e começa seu trabalho exaustivo para recompôr seus arredores e as vidas dos habitantes de outros corpos. É impossível saber a opinião do corpo sobre qualquer coisa. É impossível saber se o corpo prefere dormir em uma cama de espinhos ou se deitar em uma nuvem de fumaça, mas ele é determinado em catar os pedaços das vidas que eu destruo. É impossível saber através do rosto dele se eu estou certo sobre qualquer coisa. Olhar para aquele quadro é ser incerto de seus próprios motivos, mesmo que eles tenham parecido estar fincados no chão a momentos atrás. Através da linguagem, o corpo se esconde e se revela intermitentemente, se alimentando da verdade e a transmitindo para mim através do cordão umbilical, mesmo que eu nunca saiba o que é pra eu fazer com ela. Ele sabe disso, e me deixa com meu brinquedo para me ocupar. É a dádiva de meus tempos, é mais forte que eu, o desejo de descanso e retorno à idade infantil.
O corpo, deus de seu próprio domínio, poderia ser feito de terra. Poderia ser feito de aço. Mas sua carne é simbólica. Sua carne é espiritual, como a alma do planeta. É uma detestável perda de tempo e é inferior a todo outro corpo, mas pertence ao mundo como qualquer escremento de qualquer animal. É digno, é inútil e é irreconhecível. É um pequeno passo para a destruição do mundo, mas um grande passo para a destruição do que o habita. É a própria linguagem: imensa, intensa, circular e parasita.

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