Para começar o Nightporter, eu gostaria de falar um pouco sobre o meu processo de escrita e composição. Afinal, esta publicação não é só para falar sobre a arte de outras pessoas. Eu também sou artista, ora! Mas é mais porque, nesses últimos anos, tenho me interessado em falar sobre como costumo escrever qualquer coisa, já que nunca tinha me ocorrido antes que era um processo incomum.
Por onde devo começar? Não faço ideia. Acho que podemos começar com os textos. Você pode pular para a parte das músicas/poemas se quiser.
Textos (incluindo entradas de diário)
Eu escrevo contos, entradas de diário e ensaios. Eu gosto de não planejar para onde estou indo quando escrevo no diário ou em um ensaio, já que confio que minha mente vai me guiar para lugares belos agora (essa é uma frase que eu nunca imaginei que diria). Normalmente eu só sei sobre o que vou falar, talvez algumas metáforas que me vêm imediatamente à mente, e trabalho a partir daí.
Eu sempre tento focar em algum aspecto subjetivo do que estou escrevendo — o que isso me faz sentir, ou uma história pessoal que tenho com aquilo, em vez de ser apenas uma crítica direta. Mesmo para filmes que escrevo críticas, não me considero um crítico. Eu gosto de falar sobre o que eu aprecio nessas obras, sem realmente focar no negativo. Não que críticos sejam negativos, mas eles precisam ser quando necessário. Eu simplesmente não tenho isso em mim.
Como tudo o que eu escrevo, o texto passa por uma espécie de filtro de metáforas e comparações, e no fim das contas você só melhora nisso quanto mais você escreve e lê. Pela minha experiência de mais de uma década escrevendo coisas que vêm de partes profundas de mim, normalmente me sinto confortável com como meus textos se desenrolam. Eles não são tão bons e às vezes podem ser rudimentares, longos demais ou arrastados, mas todos nós ainda estamos crescendo nessa terra das mentes, e eu planejo evoluir minha escrita com o tempo, à medida que solidifico meu estilo.
No entanto, algumas partes são intencionais. A grande maioria de todos os textos, poemas e músicas que já escrevi foram em inglês, então minha mente literária muitas vezes pensa nessa língua. Porém, e isso fica um segredo pra essa versão traduzida do texto, eu acho o português impossivelmente lindo, de verdade. É muito mais plural, como se fôssemos completamente abertos a observar a língua de ângulos complexos, onde tiramos da luz da comunicação mil maneiras de iluminar um ambiente. Mas eu não abandono o inglês totalmente quando eu escrevo em português, e o reverso também não acontece. Gosto de misturar os dois às vezes nas formas em que as frases em ambas as línguas são construídas, como com um inglês quebrado e um português quebrado. Os pedaços restantes dos dois se unem e me parece que temos uma língua que sempre se expande. Eu ainda estou me tornando melhor nisso, então às vezes seja no texto em inglês ou português, minha linguagem quebrada fica apenas truncada. E não digo de quando ela não faz sentido: eu não dou a mínima se ela é entendida. Mas às vezes ela simplesmente não flui bem, e nisso, sim, preciso melhorar.

Todos nós brasileiros conhecemos Chico Xavier. Ele era um médium responsável por psicografar diversas cartas, geralmente concedendo a autoria dessas escrituras aos mortos, e doando os direitos autorais de suas obras à instituições de caridade.
No outro dia eu disse brincando a um amigo que meu processo de escrita é parecido com essa psicografia dele. Para entender, precisamos falar um pouco sobre músicas e poesia. O que direi aqui também vale para textos, em grande parte.
Como eu escrevo (e como eu escrevia) minhas músicas
Eu escrevo músicas desde muito pequeno. Sempre tive afinidade com canções, então ingenuamente queria fazer minha própria versão delas e tentar escrever algo novo. Como isso não acontecia com tanta frequência e a maioria dessas músicas se perdeu no tempo, só me considero de fato um compositor a partir de 2014–2015, quando tinha 13–14 anos. Podemos falar um pouco sobre minha progressão como compositor, e tudo meio que começou em um único dia. Essa história, que por si só começou no meio dela mesma, começou com um amor não correspondido, como todas as minhas histórias geralmente começam.
Eu estava na aula de história. Não conseguia prestar muita atenção no professor por conta da minha falta de atenção, mas não havia nada mais pra fazer. Eu estava entediado até a alma. Comecei a tentar ouvir as conversas ao meu redor, já que todos do meu lado da sala estavam coletivamente ignorando o professor e conversando entre si. Então, ouvi minha antiga paixonite falando com uma amiga. Ela falava sobre o namorado; tinham começado a namorar recentemente. Ela falava dele como um príncipe. Eu simplesmente não conseguia ouvir aquilo. De repente, parecia que minha mente queria escapar de todos os sons daquela sala, transbordando estímulos no cálice vazio de meu cérebro.
Então, enquanto eu estava um pouco ansioso com a situação, percebi algo. Meu pé batia no chão, fazendo um ritmo que imediatamente me interessou. Eu disse para mim mesmo: “MANTÉM ESSE RITMO, POR FAVOR” até conseguir focar e pensar naquilo como música. Mesmo sendo tudo muito simples, acabei escrevendo uma música naquela noite só a partir desse pequeno exercício de distração, usando apenas aquele ritmo como farol inicial — uma música de rock pauleira chamada “Gnashing Misery”, sobre um mundo distópico onde robôs eram escravizados por humanos e mantidos no subsolo com grandes máquinas e fumaça cobrindo todo o lugar, até que um robô se rebelasse. A música, então, era sobre o que esse robô dizia aos seus companheiros para fazê-los rebelar. Olha, eu tinha 13 anos, ok? Era 2014, e ainda não estávamos tão saturados pelo excesso de mídia distópica, então a música não parecia cansada. Foi inspirada em “Underground”, uma música do Tom Waits que toca naquela parte do filme Robôs em que mostra todos os robôs trabalhando sob a cidade. Meu amor eterno por Waits começou com essa música.
A diferença dessa experiência em relação a qualquer outra anterior foi que eu realmente gostei da música. Aos poucos, e com as músicas seguintes, fui me apaixonando pelo processo de escrever. Passei a me imaginar como frontman e pensar em ter uma banda e tudo isso.
Durante um período em 2015, eu realmente escrevia uma música por dia. Acabei perdendo quase todas, já que não usava ferramentas de backup na época, e provavelmente todas eram ruins, mas na época eu adorava a maioria delas.
Quando falo sobre escrever músicas, acho que meus amigos pensam que escrevo a letra antes da melodia. Na verdade, sempre odiei ouvir músicas em que sei que a letra veio antes da melodia; e acredite, você sempre percebe. Eu sempre começo pelas melodias. Em 2015, literalmente do nada, eu era visitado por uma melodia. Estava andando pela casa e, de repente, meu cérebro me entregava a linha de baixo mais incrível de todos os tempos, e eu precisava escrever algo em cima dela na hora. Isso acontecia com frequência e me lembro de todas serem muito boas.
O processo mudou bastante ao longo dos anos. Ainda sou visitado por melodias, mas frequentemente tudo começa com uma frase, na verdade. Penso em uma frase ou palavra e depois a repito na cabeça até que encontre uma melodia. Minhas melhores melodias vêm desse processo, recomendo bastante. Mas então, preciso escrever a letra.
A única diferença em relação aos textos, poemas e ensaios é que, nas músicas, eu realmente valorizo rimas internas e esse tipo de coesão interna com a melodia muito mais do que simplesmente dizer diretamente o que quero dizer. Isso significa que ainda é um processo etéreo (mais sobre isso no próximo segmento), mas precisa seguir as métricas impostas pela melodia. Isso pode acontecer em um ensaio ou quando escrevo no diário, mas não durante todo o texto.
Já que o que eu vou explicar agora vale tanto para poesia quanto para canções, eu o dividirei em sua própria seção.
Poesia (mas músicas também)
A forma como gosto de explicar o processo é que é como se eu vomitasse algo no papel e isso criasse um tipo de pintura Rorschach que eu preciso entender.
Eu penso no que quero dizer e isso cria uma imagem ou sensação em mim. Então me concentro nessa imagem ou sensação, geralmente indo atrás das palavras que me vêm à mente quando olho para ela ou a sinto. É como quando um psicólogo te diz que as palavras que você usa para descrever algo dizem muito sobre como você se sente em relação àquilo, sabe? Por exemplo, se penso nos meus erros do passado e quero começar uma música com algo como “Que outras mãos um ladrão tem?”, isso me intriga porque me diz muito sobre o que eu realmente, no fundo, penso sobre mim naquele momento. O processo parece que você está escrevendo uma metáfora, ou como se fosse um fotógrafo buscando uma paisagem para traduzir as emoções dentro de você — mas, nesse caso, você pode editar essa paisagem, já que está na sua mente. Você se afasta tanto do que queria dizer diretamente que sua escrita se torna mais colorida e, curiosamente, você corre o risco de se perder um pouco.
O que quero dizer com essa última parte é que a coisa mais curiosa desse processo é que às vezes eu escrevo uma música sobre algo, passa tempo suficiente, volto a ela e não faço ideia do que quis dizer. É por isso que é um Rorschach para mim; é tão enigmático que se torna um lugar para eu me esconder, às vezes até de mim mesmo. Aprendi com o tempo a me ler melhor, então, mesmo que eu esqueça o que quis dizer na época, consigo reler e entender porque entendo melhor a mim mesmo. Às vezes até acontece de, no momento em que estou escrevendo, eu não saber o que estou dizendo, e só realmente entender muitos meses depois. É um processo tão onírico, é como se eu tivesse uma conversa direta comigo mesmo, com algo profundo dentro de mim que me move e que nunca vejo. Coloco meu coração e minha alma como tinta, e a mão se move sem esforço.
Você pode se perguntar: Mas como você sabe que isso não é só bobagem? Como você sabe que está escrevendo algo que realmente significa alguma coisa, e não apenas algo a que você dá sentido depois? A resposta não será satisfatória: eu simplesmente sei quando estou enrolando e quando não estou. Não se trata de uma frase ser bonita ou não; já deixei de lado muitas frases bonitas porque percebi que não significavam nada. O que acontece na maioria das vezes é que olho para algo e, se parece incoerente, me pergunto: “É realmente assim que quero dizer isso?” Na verdade, sendo honesto, a maioria das vezes eu nem me pergunto isso. Eu sei, eu sinto. Já faz uma década que comecei a escrever, eu sei quando estou mergulhando fundo em mim mesmo, quando estou sendo superficial ou quando não estou dizendo nada com nada. Claro, as letras e versos não são sempre perfeitos, embora estejam muito melhores nos últimos anos. Mas só preciso que sejam honestos. Isso é tudo o que preciso. Prefiro que sejam sentidos do que compreendidos.
Conclusão
É isso. Espero que você tenha se interessado pelo processo e que isso te ajude na sua escrita de alguma forma.
Devo dizer que, quanto à escrita no português, por muito tempo eu me sentia um iniciante. Eu sabia como a língua funcionava (é minha língua materna, no fim das contas), mas é como se ela se expandisse para muito mais longe do que quando escrevia em inglês. Mas ao falar em inglês eu me sentia mais confortável para viajar, como se fosse uma rota mais segura por ser sempre mais curta. Hoje em dia me sinto confortável nas duas línguas, e geralmente um texto é em português ou inglês porque naquele momento eu sentia que aquela língua me deixaria mais confortável do que a outra. No fim, são duas bestas belíssimas.
Amo vocês, se cuidem!
Só mais uma coisa: Esse foi o primeiro post do meu segundo Substack, Nightporter. Por lá eu falo um pouco sobre álbuns que eu estou ouvindo, livros que estou lendo e art em geral. Menos filmes; eles terão seu próprio Substack, que é o Substack da minha revista Close Up que será compartilhado comigo e os outros editores da revista.

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