[br] Long Dark Blues — A Magia de “Farewell Transmission”

8–12 minutos

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Quando pensamos em Songs:Ohia ou Magnolia Electric Co. (a banda) hoje em dia, nossas mentes escrevem na lápide de Jason Molina enquanto ouvimos suas letras. Temos esse erro — como erro? — de configurar uma tragédia épica na existência que se foi, nós definimos a dor transmitida com sucesso quase que como a cola dos artistas enterrados, e sentimos pena só de ouvir seus nomes. Você tem seus Kurt Cobains, suas Amy Winehouses… Pessoas que certamente, como eu e você, não gostariam de receber pena, mas a nuvem veredita que rega os vivos nos faz observar a mortalidade através de olhos menores que a nossa vida. Mas há uma certeza nessa beleza humana: a celebração desses seres apontando à suas belezas inscritas na arte, a comemoração da vida como um banquete. Algo que não precisa ser reservado para vidas vividas em glória exterior, como se fosse nosso paraíso terreno, o afeto guardado aos fiéis. Não há porque ver a vida passada com pena; precisamos amar as sementes que foram plantadas nos corações dos que sobraram aqui. Dessa forma, ainda assim digo que Molina e todos esses artistas alcançaram uma forma de se comunicarem conosco por infinitas gerações, transmitindo as belíssimas leituras próprias de suas almas pela tinta invisível da arte, repousando na Terra após o dia, como uma lua que ilumina a noite.

Pareceu um parágrafo de conclusão, não? Como se fosse a última coisa que eu diria após ter dito tudo o que era pra ser dito sobre Molina e sua obra. E talvez, sim, seja bom começar pela despedida hoje. E talvez eu tenha concluído algo. Mas é apenas para fecharmos o livro de que para falar sobre a glória de álbuns como Magnolia Electric Co. ou de músicas como “Farewell Transmission”, nós precisaríamos falar sobre como essas coisas se tornam mais importantes porque para nós do futuro elas parecem vir do além. Mas talvez você não faça ideia de quem Jason Molina é e está esperando eu o definir. Desculpa, mas não pretendo fazer muito disso aqui. Se você quer a descrição penosa, Jason Molina era um artista prolífico, um músico, compositor e cantor que nos deixou em 2013 após uma falência múltipla de órgãos causada por uma longa batalha contra o alcoolismo. Se você quer uma descrição que tenha mais a ver com vida do que com morte, é preciso que se fale por que ele se perdurava para além dos minutos de suas músicas, muito antes de perdurar para além de sua vida. Para fazermos isso, os momentos válidos de sua obra para esse reconhecimento são inúmeros. Mas talvez sua maior contribuição para a eternidade foi o seu primeiro álbum com o grupo Magnolia Electric Co., cujo nome é o mesmo que o da banda, mas principalmente o modo que ele escolheu iniciar essa nova trajetória: sua música Farewell Transmission.

Vamos falar sobre o elefante na sala, antes de mais nada. Farewell Transmission, produzida pelo lendário Steve Albini, possui uma história que sempre parece vir junto com a discussão sobre a música. Segundo o próprio Molina em uma entrevista, a gravação de Farewell Transmission foi praticamente milagrosa.

“Acho que nós colocamos umas 12 pessoas numa sala e gravamos a música ao vivo, completamente ao vivo e sem ensaios. Eu mostrei pra eles a progressão de acordes, eles não faziam ideia de como ia acabar, e nós conseguimos dar conta. Steve fez um lindo trabalho. Eu notei que em uma hora estava um pouco alto demais ou um pouco calmo demais e ele foi e abriu uma porta pra fazer tudo funcionar, porque aquilo era uma gravação ambiente. Quando você ouve a música começar todo mundo lá já sabia, e o que é mais bizarro pra mim é o jeito que eu achei de terminar ela foi que eu comecei a falar algo pra banda e pro Steve — eu ficava dizendo “Listen. Listen. Listen.” E aí uma hora todos eles pararam. Foi ótimo.”

Jason Molina para Justin Taylor, The Faster Times.

Basicamente, Farewell Transmission foi uma música gravada em uma tomada só, sem ensaios, ao vivo, parcialmente improvisada e os músicos mal faziam ideia de como ela ia terminar. A gravação e a mixagem da música são milagres e certamente precisariam ser faladas por alguém que entende mais das áreas técnicas desse mundo. Quanto a mim, palavras são meu mundo. E temos sorte que a letra dessa música é de outro planeta.

Letra de Farewell Transmission

The whole place is dark
Every light on this side of the town
Suddenly it all went down
Now we’ll all be brothers of
The fossil fire of the sun
Now we will all be sisters of
The fossil blood of the moon

Someone must have set ‘em up
Now they’ll be workin’ in the cold grey rock
Now they’ll be workin’ in the hot mill steam
Now they’ll be workin’ in the concrete
In the sirens and the silences now
All the great setup hearts
All at once start to beat

Molina cria essa imagem para nós, logo após sermos introduzidos à sua melosa guitarra. Nesse mundo do qual habitaremos por alguns minutos, a eletricidade se foi. Todos os nossos caprichos elétricos, toda a nossa vida moderna como a conhecemos não existe mais. A humanidade regride para um momento antigo, um momento de trabalhos manuais e uma vida mais comunal.

Eu, pessoalmente, adoro como ele chama a luz do Sol nesse momento de “fogo fossilizado”. Nós todos compartilharemos dessa chama antiga que queimava em cima das cabeças de nossos antepassados de milhares de anos atrás, assim como a sua reflexão à noite, que se “derrama” como sangue fossilizado através da Lua. Nós entramos em contato com a companhia desses astros e, assim, nos conectamos como irmãos e irmãs mais uma vez.

After tonight, if you don’t want this to be
A secret out of the past
I will resurrect it, I’ll have a good go at it
I’ll streak his blood across my beak
Dust my feathers with his ash
Feel his ghost breathin’ down my back

Com essa belíssima, inifitamente belíssima forma de demonstrar sua determinação através da imagem de um pássaro, como o da capa do álbum, Molina se voluntaria para trazer essa sensação de volta para os humanos de hoje. Essa irmandade que nos era dada pela nossa proximidade tão rudimentar, tão rochosa. Uma última chance de tentar de novo, de ressuscitar de forma sangrenta a humanidade que já tivemos. E então, partimos para a minha frase favorita da música.

I will try and know whatever I try
I will be gone, but not forever
I will try and know whatever I try
I will be gone, but not forever

Eu amo isso. É um ótimo refrão. Tão simples, tão direto. É através de palavras assim, quase que diretamente, que Molina consegue transmitir sua eterna vivência. Por toda a música, Molina demonstrará a importância da perseverança e força humana quanto à condenada experiência de nossas vidas. Diante da morte, diante de todo o sofrimento que vivemos, devemos tentar e confiar que retornaremos em breve. Que não nos perderemos nos caminhos tortuosos que seguirmos cegamente, pois não há passo longo que escape da trilha da morte, mas certamente podemos nos achar no conforto de nossos segundos, sempre últimos, confortáveis como penas de pássaro.

Real truth about it is
No one gets it right
Real truth about it is
We’re all supposed to try
There ain’t no end to the sands I’ve been tryin’ to cross
The real truth about it is
My kind of life’s no better off
If it’s got the map or if it’s lost

We will try and know whatever we try
We will be gone, but not forever
Come on, let’s try and know whatever we try
We will be gone, but not forever

De forma impossivelmente linda, Molina demonstra sua realidade quase que como um desespero. A futilidade de nossos esforços para alcançar qualquer sentido e direção numa vida que é suposta a ser curta e longa, indescritível, mas resumida. Nós devemos tentar, mesmo que cegos. Tentar e tentar. Está na tentativa a verdade de qualquer vida.

Real truth about it is
There ain’t no end to the desert I’ll cross
I’ve really known it all along
Mama, here comes midnight with the dead moon in its jaws
Must be the big star about to fall
Mama, here comes midnight with the dead moon in its jaws
Must be the big star about to fall

Em uma das mais marcantes linhas do álbum inteiro, Molina volta com a ideia da lua ser uma companheira imensamente antiga dos humanos, essa figura já morta como a humanidade que a venerava quando o céu era o nosso mais indescritível cenário — o sangue fossilizado da lua no primeiro verso. Nessa imagem marcante, nós temos um cenário verdadeiramente apocalíptico, como se a morte finalmente houvesse chegado a todos. Estamos, então, prontos para nos despedir da humanidade, esperando que ela continue a ser transmitida de alguma forma pelo eco do universo.

Long dark blues
Will-o’-the-wisp
Long dark blues
The big star is fallin’
Long dark blues
Will-o’-the-wisp
The big star is fallin’
Long dark blues
Through the static and distance
Long dark blues
A farewell transmission
Long dark blues
Listen
Long dark blues
Listen
Long dark blues
Listen
Long dark blues
Listen.

Nos despedimos da música, enfim. Eu interpreto esse final como eu disse anteriormente: esse desejo de que essa música ou que essa humanidade permaneça para além de nossas datas de validade, para que nos achemos em um momento após nós, para que a escuridão da qual cercava o nosso caminho pelo deserto e que consumia nossos corações duvidosos se espalhe pela escuridão do universo, como um último repouso para a alma humana. Como se nos derramássemos em nosso leito por último, prontos para mais uma escuridão, sendo ouvidos pelas nossas últimas palavras que se repetem no vazio da mente do espaço; nossa transmissão de despedida.

O mar da música é um caminho sem fim

Eu não gosto da ideia de analisar a letra de uma música, como se houvesse uma direção certa pela qual tomar ao ler essas letras que não foram nem mesmo ditas por mim. Mas eu senti que seria mais efetivo pelo menos dizer como eu as interpretava. Nós terminamos com isso, agora. E já é quase hora de dizer nossos adeus.

Além de qualquer história e após a linguagem, há um aspecto do trabalho de Molina que se determina a ser comunicado de forma efetiva assim que você o ouve. Ele o traz para perto de uma mente que é bem bonita, mesmo se atormentada. Pelas falhas de sua voz e as falhas na parede que há entre as palavras sendo cantadas, nós temos essa quase que cegante luz de afeto que eu não faço ideia se ele sabia que estava sendo transmitida através do chiado. Ela não o deixa entendê-lo, mas é como se ele estivesse querendo o reconfotar mesmo se fosse com uma voz depressiva. Dele é o lugar da lua da voz, um lugar para ser compartilhado entre ele mesmo e quem o ouve, antes de mandá-lo de volta para o caminho de sua vida, deixando-o sozinho em sua órbita. E ele conseguiu fazer isso através da bondade que parecia vazar de suas palavras, que ignorava qualquer raiva e dor que ele sentia. Esse senitmento duradouro de vivência, de uma inelétrica voz além de sua palavra.

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