Eu não me lembro muito como, mas há um mês, enquanto procurava por artistas novos no RateYourMusic, eu achei essa banda que quase foi apagada pelo tempo. Eu amei o nome deles: “Everyone Asked About You” (Todo Mundo Perguntou Sobre Você). Há uma certa calidez que vem quando você o lê, e eu descobriria depois que o nome traduz muito bem a bondade e a bagunça no conforto do som deles.
De acordo com esse artigo escrito pelo Ken Shipley, que eu recomendo muitíssimo que você vá ler para conhecer a história da banda, eles pegaram o nome deles de um livro de criança. Criando uma banda que combinava Midwest Emo e Twee pop, eles tocavam em pequenos locais em Little Rock, no Arkansas, espalhando o evangelho de seu belo estilo para um público que aos poucos estava perdendo o amor pela cena local. Pouco antes de terminarem seu álbum de estreia, o grupo se separou, e cada um tentou encontrar um caminho que lhes trouxesse memórias mais estáveis — alguns deixando para trás o sonho outrora encantador de estar em uma banda.
Claro, deixando o contexto mínimo de lado, você vai se sentir melhor lendo o artigo de Ken. Acho que ele escreveu sobre eles e sobre a cena de onde vieram de forma tão bonita que acho que ele deveria ser o seu portal para compreender o cenário que antes já foi inundado pelo som deles.
Estou aqui para falar sobre meu apego pessoal a este EP. No fim das contas, eles lançaram oficialmente apenas um EP, um single e um split EP com o The Shyness Clinic; agora, falaremos apenas sobre o EP solo deles.

Com o som do Everyone Asked About You, você tem a voz terna de Hannah Vogan te dizendo coisas alegres e tristes, enquanto Chris Sheppard aparece de vez em quando para ajudar o sentimento a vir à tona — e juntos eles gritam, carregando toda a beleza daquele instante. Você tem Lee Buford e Collins Kilgore essencialmente unindo tudo, criando uma espécie de urgência energética para uma dor suave e gentil que eles projetam. Mesmo quando Hannah e Chris gritam para você “there’s an ache in my bones and I can feel it breaking through” (“há uma dor nos meus ossos e eu posso senti-la atravessando”), dá pra perceber desde o início que eles também parecem tentar trazer o conforto que vem junto com a tristeza.
Como gosto de pensar, ouvir as músicas desse EP é como passar uma tarde inteira com um amigo depois da escola, cada um falando sobre o que o aflige, e sentindo aquela companhia calorosa que só alguém que realmente te entende pode oferecer. É o abraço depois do choro, o abraço antes de qualquer palavra ser dita. São as palavras gentis vindas de alguém que também está ferido, acendendo o fogo em dois corações congelados que ali sentavam.
Everyone Asked About You — Me Vs. You
Just between me and you
I think I’m in love with you
All of my waking time
You’re on my mind
I don’t know what to do
You never looked so right that night
Haloed by the light at the lamplighter
Just between me and you
I think I’m in love with you
Mesmo neste momento, tudo parece tão delicado. Como uma declaração de amor que eu nunca recebi, no quarto de uma garota que eu amava depois da escola, logo antes de um beijo que nunca aconteceu, seguindo os passos de uma estrada macia como um travesseiro pela qual eu gostaria de caminhar para sempre. Tudo é tão reminiscente daquele amor simples que você carrega quando é muito jovem, quando as palavras certas são apenas as que saem, sem poderem ser guardadas, e o único futuro em que você pensa é o próximo dia em que vai vê-la novamente.
Esse amor duraria para sempre? Sim, naquele momento. Vê-los “aureolados pela luz do lampião”, sim, aquele momento duraria para sempre.
Everyone Asked About You — It’s Days Like This That Make Me Wish The Summer Lasted Forever
You know the words I want to hear
They need to be said to me
(Summer) I love you, I love you, I love you
(Always gets me right here) Summer…
A canção mais adorável é, sem dúvida, aquela com o título mais longo — onde eles simplesmente falam sobre o quanto amam o verão e o quanto amam alguém.
Ser contra algo tão simples e inocente é, para mim, ser contra o crescimento da própria alma; porque a alma deve sempre crescer em direção a um lugar onde ela sempre esteve, deve sempre retornar ao estado de onde veio — aquele em que as árvores eram belas porque eram verdes, e o céu era belo porque era azul. Em palavras cada vez mais convolutas e pretensiosas, ouso dizer: uma alma que não busca encontrar o lugar confortável entre o inteligente e o ignorante estará mirando cegamente em uma única direção, e qualquer caminho que escolher acabará levando, de todo modo, a um homem mais tolo.
Vamos ser mais gentis, encontrar a beleza no verão. Vamos dizer “eu te amo” com mais frequência quando tivermos vontade de dizer, sem nos censurar quando transbordamos, se a semente que cresceu em nós deseja tocar o Sol que a banha.
Everyone Asked About You — Everyone Asked About You
Last night you promised you’d be there
But you didn’t show
Everyone asked about you
But I had no idea
Who were you with last night?
Everyone asked about you
Everyone asked about you
Waiting to see you pull up
But you never came
Each moment passed slowly and cruelly
I haven’t talked to you in days
But it seems like it’s been months
O que eu mais queria falar, no entanto, é sobre a música autointitulada da banda.
Você passa tanto tempo pensando na positividade do nome deles, e então essa música chega de um modo incrivelmente agridoce. Durante todo esse tempo, eles decidiram trazer algumas das feridas que carregavam para suas vozes gentis e cansadas, desejando se conectar com alguém que simplesmente falha em estar presente.
De certa forma, isso define a banda: o doce e o amargo; o conforto do abraço antes dos espinhos da rosa em seus corações te tocarem. Em suas mentes jovens, a banda conseguiu transmitir uma sensação terna que descongela os planaltos distantes de um coração. De maneira simples e discreta, eles capturam o seu coração e depois o deixam ir. É o abandono após uma noite em amor, é o amor antes da faca nas costas. Mas, se devemos amar não como adolescentes, e sim como adultos, então o EP autointitulado do Everyone Asked About You é o retrato na parede de um tempo em que você amava alguém simplesmente porque não conseguia se manter longe dela.
A crítica deveria terminar aqui, eu acho. Mas continuei pensando sobre minha própria jornada pessoal — e uma pessoa me veio à mente.
Ela é uma longa história, mas nós nos apaixonamos na escola. Porém, em momentos diferentes. Ela era minha melhor amiga, e éramos jovens demais para entender que a conexão que tínhamos era como a pedra para o mar, ou o afogamento feliz de um peixe.
Houve um dia em que ela me pediu para ir à casa dela. Eu era amigo da irmã dela, e ela também sempre me chamava. Eu recusei. Não sabia por quê. Hoje me arrependo muito. Talvez as coisas tivessem dado mais certo para nós dois se eu tivesse ido vê-la naquela noite. Mas eu a deixei exposta à neve da solidão juvenil que um cara como eu pode trazer, embora ela parecesse interessada em não desistir da luta.
Quando finalmente percebi que o que eu sentia por ela era amor, já era tarde demais: ela arranjou um namorado, o que viria a se tornar uma tendência cruel nas minhas futuras amadas. Mas ela nunca deixou de se importar comigo.
Eu me lembro disso; era 2015, minha mãe estava muito doente, eu não tinha muitos lugares onde pudesse sentar e descansar em paz, e foi mais ou menos aí que minha depressão crônica começou. Eu me sentia infeliz com meu corpo muito magro e passei a sair de casa apenas com moletom, blusa de capuz e calça, qualquer coisa que escondesse meus braços e pernas. O mundo parecia mais curto e ríspido, e, de certa forma, eu estava sendo deixado para trás por uma sensação estranha, como se eu estivesse andando em um carrossel em movimento que arrastava meus amigos em uma dormência feliz, mas que trazia apenas sono para mim.
Um dia, mesmo sem termos conversado muito por um tempo, ela me levou até o canto do pátio, no recreio. Ela me pediu, em um tom muito sério, para levantar as mangas do moletom. Eu não entendi, então meio que recusei. Ela pediu de novo, e estava tão séria que me assustou. Ela estava preocupada com algo, mas eu não sabia o quê. Eu arregaçei as mangas, e ela começou a procurar alguma coisa. Ela suspirou. Era alívio.
Perguntei o que tinha sido aquilo, e ela me disse que achava que eu só usava moletom porque estava me cortando, então eu estaria escondendo as cicatrizes. Ela estava preocupada depois de me ver tão deprimido. Acho que essa foi provavelmente a coisa mais gentil que alguém já fez por mim. Num ano em que eu achava que estava sendo abandonado e esquecido por todos, ela não só me notou, como se importou comigo.
A garota que eu amava. Quão sortudo eu era por ter alguém assim na minha vida? Eu não sabia.
Eu realmente, realmente não sabia. É uma história para outra hora, mas um ano depois ela estaria num lugar muito ruim; todos os amigos se voltariam contra ela, e ela ficaria sem apoio algum. E não — eu não estive ao lado dela. Ela esteve ao meu lado quando eu estava no fundo do poço, mas eu não apareci, exatamente como o cara da música final desse EP (você tá lendo uma resenha de um álbum, se lembra disso?). Definitivamente, é a pior coisa que já fiz, mas acho que faz sentido: parece que eu tenho a arte de ferir justamente as pessoas que mais amo.
Prometi nunca mais fazer isso, nunca mais decepcionar um amigo, alguém que faria tudo por mim.
Eu acabaria fazendo isso de novo algumas vezes depois.
Mas, recentemente, descobri que ela terminou com o namorado. Eles estavam juntos desde aquela época, e quase uma década depois, o relacionamento chegou ao fim.
Eu sempre tive minhas preocupações em relação a ele; nunca me pareceu uma boa pessoa, e acho que ele meio que a levou a se tornar aquela pessoa contra quem nossos amigos acabariam se voltando contra. Ela costumava ser uma amiga muito gentil e bobinha; de repente, ela passou a sair e beber o tempo todo com ele. Então sim, eu o culpei por isso e achei que ele fosse uma má influência.
Mas acho que era só ciúme. Afinal, havia algo ali que durou nove anos.
Até hoje, eu ainda me lembro da risada dela. Era a melhor parte dela, daquelas pessoas que você quer fazer rir o tempo todo, só pra poder ouvir de novo.
Eu não soube como reagir quando soube que ela estava solteira. Seria certo pensar que ela está melhor sozinha? E será que ainda existe algo ali, escondido, como eu me escondi dela quando ela precisou de mim?
Acho que me senti feliz. Eu não sei quem ela é agora, já faz muito tempo. Mas fico feliz em saber que ela pode encontrar alguém que esteja ao lado dela, e não alguém que a preocupe como ele fazia. Eu adoraria falar com ela mais uma vez algum dia, explicar o que aconteceu naqueles tempos — e, principalmente, dizer que sinto muito.
Mas acho que também gostaria de saber se ela ainda tem aquela risada. E se ela ainda carrega os amigos no coração com um abraço caloroso, protegendo-os do tédio e dos perigos de envelhecer, cuidando deles com a preocupação de uma santa.
Então, é… Uhm… Everyone Asked About You é muito bom!
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About the text: Obrigado por continuar me lendo. Já que os textos do Nightporter estavam demorando pra sair, não estava tendo muitos textos em português aqui no site já que eu não traduzo o the-thief. Agora eu planejo postar mais, mantendo uma regularidade por aqui até um emprego começar a consumir meu tempo. Haverá um post anunciando algumas coisas nos próximos dias.
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