Quando eu era mais novo, igualmente desocupado se comparado aos dias atuais, eu encontrei um problema de lógica em um site que me interessou muito. Descobri anos depois que se chamava “Zebra Puzzle” em inglês, mas me foi vendido como o “Teste de raciocínio de Einstein”, porque se acreditava que ele o criou.
Explicando muito por cima: você é dado uma série de frases com informações sobre cinco casas. As informações podem ser coisas como “O inglês vive na casa vermelha” ou “O ucraniano bebe chá”, mas também podem ser “Bebe-se leite na casa do meio” ou “O homem que fuma Chesterfields vive na casa próxima do homem que tem uma raposa”. Basicamente, você precisa saber, por exemplo, a nacionalidade de quem vive na primeira casa, a cor dessa casa, o que bebem nessa casa, o animal de estimação que mora nessa casa e a marca de cigarro que fumam nessa casa, fazendo isso para cada casa e as organizando na ordem certa.
Peço perdão se expliquei mal, mas é algo que deve fazer mais sentido quando você vê as informações nas frases. Aproveitando que o texto é em português dessa vez, recomendo o site Rachacuca; eles têm tudo organizado lá para facilitar a mentalizar o exercício.
Não darei “spoilers” sobre a resolução desse puzzle, até porque meu desejo ainda é falar sobre sudokus, então tentarei ser mais direto ao ponto.
Eu finalizei esse teste duas vezes, com a segunda tentativa sendo exatamente um ano depois da primeira — minha terrível memória me ajudando a realizá-lo como se nunca o houvesse concluído. Eu não lembro de como o teste se concluí, de quem estava na casa de quem, nada disso (talvez seja o momento para uma terceira tentativa?). Mas me lembro muito bem que nas duas vezes fiquei preso no mesmo exato momento.
O teste flui muito bem até você chegar em uma parte. Para passar dessa parte, você tem que dar um pulo lógico imenso — ou que parecia imenso para o meu eu mais jovem. Você tem que perceber algo que você não estava nem mesmo considerando, e quando o percebe, você sente um imenso alívio e consegue terminar o resto do teste com facilidade.
Eu me apaixonei por esse teste assim que o concluí. Era esse alívio, essa realização de que as peças se encaixam que eu sempre amei a minha vida toda, inclusive antes desse dia.
Lembro-me que quando eu estava no ensino médio, meu professor de física (que não era uma pessoa muito bondosa com ninguém da minha sala e conhecido por ser muito carrasco) contou que achou muito engraçado que em um momento de sua aula, deveria ser alguma prova talvez, eu esbocei uma reação muito exagerada ao conseguir resolver um problema difícil. Dei um grande sorriso, suspirei alto e escrevi ansiosamente o resultado.
Nos anos seguintes, todas as vezes em que eu tirasse uma nota ruim em uma de suas provas, ele me lembraria daquele momento. “Onde está aquele garoto que fez tal coisa na minha aula?” Segundo ele, ele conseguia observar meu desinteresse pelo jeito que eu resolvia mal minhas equações. Talvez ele estivesse certo, mas eu realmente tentava, então suas palavras me deixavam mal, assim como elas faziam os outros que as encontravam em sua sala de aula.
Eu nunca fui a pessoa mais esperta do mundo, mas antes do fim da escola eu parecia reverenciado pelo meu intelecto. Minha mãe sempre me lembrava quando ela ainda estava viva que enquanto eu estudava em uma escola municipal do Rio (uma unidade de ensino gratuita e muito abaixo do padrão de uma escola pública ou particular, pelo menos na época), a minha professora da época chegou a ela em uma reunião e disse a ela que eu precisava ser retirado da escola, pois eu era, segundo ela, “inteligente demais para ficar ali”. Ela disse em palavras mais doces, que foram traduzidas com ainda mais amor pela minha mãe.
Então, fui trago para um colégio da vizinhança, onde passei todos os anos restantes até minha formação, no exato ano em que minha mãe falece. O ensino desse lugar era dito como sendo bem difícil, e era a 10 minutos de nossa casa, então parecia um ótimo lugar.
Em todo lugar que eu ia, antes e durante esse colégio, os alunos me achavam muito inteligente pelas minhas notas altas nas provas. Eles diziam “você é muito inteligente, você deve estudar muito”. Mas eu não estudava nada. Eu apenas gravava os textos pedidos e as fórmulas solicitadas e as cuspia na prova. Eu era do período da tarde no ensino fundamental, então eu acordava um pouco mais cedo no dia da prova e lia o que eu sabia que ia ser pedido na prova do dia. Não estudava nada antes e não prestava muita atenção nas aulas — não conseguia ter atenção o suficiente para nenhum dos dois. A hora da prova chegava e eu lembrava de tudo porque havia acabado de ler sobre, então me saía por cima. Eu não estudava, então se me diziam que eu era inteligente porque estudava muito, eu achava, então, que a realidade era que eu devia ser burro.
Nada do que eu fazia me parecia muito inteligente, mas satisfazia os que eu amava e os que me observavam, então eu continuava. Esse comportamento e apreço pela minha inteligência acabou, ironicamente, me tornando uma pessoa menos inteligente, porque eu nunca consegui aprender a estudar. Eu nunca precisei me sentar sem pressões externas e tentar aprender algum assunto, e por isso, o Enem foi algo muito complicado pra mim. Ele não é feito para pessoas que não aprenderam a estudar. Eu apenas tinha uma memória de curto prazo ótima, o único músculo que aprendi a treinar na escola e que talvez tenha se perdido com o tempo e com o avanço de minha depressão. Se lembrar de algo momentos antes de ter que recitá-los de alguma forma não me parece algo particularmente inteligente; pode ser um bom feito, mas não sei se é um tipo de inteligência.
Nesse tópico, tipos diferentes de inteligência sempre me atraíram. Conhecimentos que as pessoas têm, coisas que as tornam interessantes. Acho que esse era o meu desejo para me manter um humano; ser interessante. Conhecer pessoas que me interessam. Pessoas que gosto de ouvir falar sobre coisas que elas entendem melhor do que a pessoa comum, seus nichos especiais do qual suas bocas abrem e fecham sem parar e sem noção de tempo. Com o tempo, esses tipos de inteligência me atraem muito mais. Por exemplo, minha linda avó nunca terminou o ensino fundamental, mas ela tem um grande e extenso conhecimento sobre coisas da vida real como cozinha e afazeres da casa — conhecimento esse que ela infelizmente adquiriu e aprimorou em anos trabalhando como empregada doméstica. Mas esse aspecto negativo de sua história pra mim pode ser visto de um lado positivo agora que seu momento se acabou; ela cultivou essa inteligência específica, essa área de conhecimento que eu não tenho acesso. Na cozinha, ela é muito mais inteligente que muita gente. Acho saudável se observarmos a inteligência como essa cor de roupa que todos podem ter, de diversas roupas diferentes.
O tipo de inteligência que me era pedido na escola não era o meu tipo; de fato, concluí anteriormente que nem sei se é um tipo de inteligência se não apenas um exercício de memória. Alguns professores ficavam muito chateados quando eu tirava notas baixas em uma matéria deles. Eles pareciam bravos comigo, como se minha nota baixa dissesse algo sobre si que não quisessem confrontar. “ATÉ Marlon tirou uma nota baixa nessa prova…” Na verdade, era só uma nota baixa, como a dos outros de minha sala. Para alguém que não havia estudado, deveria ser o esperado. Infelizmente, isso não acontecia muito, então não aprendi minha lição.
Enfim, onde eu estava? Ah, sim. Sudokus.
Apesar de crescer em um ambiente que tratava de forma muito curiosa a mente de uma criança/adolescente — recompensando seu desinteresse pelo estudo e treinando músculos de corpos que ela nunca habitaria —, eu gostava de momentos em que eu percebia as coisas que eu gostava realmente de fazer. Coisas em que algo em mim crescia, em que minha mente se encontrava com a alma do mundo.
Eu sempre amei a matemática, por exemplo. Não muito a física, como meu antigo professor queria, mas a capacidade de achar a lógica por meio de um cálculo, de resolver um nó de neurônios criado em minha cabeça sempre me interessou. O sentimento que eu sentia quando resolvia alguma equação era, na interpretação do meu eu atual, a mesma sensação que senti quando resolvi o tal teste de Einstein. Era de ter, como descrevi a um amigo recentemente (te amo Gui!), “finalmente conseguido coçar uma parte do meu cérebro que estava coçando desde que comecei o cálculo”. Esse alívio; é disso que falo!
E com o Sudoku (conseguimos finalmente falar sobre ele) é como se esse momento constantemente estivesse acontecendo enquanto você o resolve.
Quando falamos sobre Sudoku, as pessoas tendem a achar que é algo para pessoas inteligentes, então não chegam perto por subestimarem suas próprias cabeças. Mas, a meu ver, nós temos apenas um tipo de inteligência sendo usado no jogo: a inteligência voltada à lógica. E eu adoro esse tipo de inteligência, e sabemos que a maioria dos testes de raciocínio (inclusive o da Zebra), que tendem a ditar quão inteligente você é, usam apenas essa inteligência. O próprio teste de QI, se me lembro bem, tem algo a ver com lógica.
Vou confessar que acredito que pessoas que conseguem resolver Sudokus extremamente avançados (se você não sabe sobre os diferentes modos de Sudoku… é um buraco de coelho) realmente tem uma inteligência lógica tão avançada que me intrigam e me fazem apreciá-los mais. Mas não veja nada disso como algo sobre saber a mais do que tal pessoa ou ter a “inteligência certa” ou “a que importa”, e também não se intimide com isso. Veja como um jogo, como um passatempo divertido; como a coçada em uma área distante do seu cérebro que você finalmente consegue alcançar.
Para mim, Sudokus são extremamente relaxantes. Na verdade, eu geralmente ouço os álbuns do quais comento no Nightporter (no momento de escrita, na verdade, os textos sobre os álbuns ainda nem foram publicados… Perdão!) enquanto realizo alguns Sudokus. É a atividade perfeita para o tal do active listening de álbuns porque não pesa tanto para a sua cabeça quando você se acostuma a fazê-los após um tempo.
O que me leva a um ponto importante: Sudokus possuem níveis de dificuldade. Quando você chega a Sudokus clássicos de níveis mais avançados, eles ainda podem ser feitos quanto mais você treinar esse seu músculo lógico, enquanto Sudokus do nível fácil podem ser feitos assim que você aprende as regras do jogo. Quanto mais fáceis eles parecerem, mais você pode avançar para um nível de dificuldade acima do atual para se desafiar um pouco.
Eu queria propor algo a você. Tente um Sudoku. Leia as regras, entre em algum site online e pegue a dificuldade mais iniciante que achar. Faça isso todo dia. Assim que você sentir que está fácil demais, aumente a dificuldade. Se você jogar um Sudoku todo dia por um mês, você vai perceber que muitas vezes o que você está fazendo não é necessariamente sobre uma esperteza descomunal; muitas das suas realizações vêm do seu costume com o quadro, de tantos jogos que você jogou e de como você se tornou mais familiar com os quadradinhos. Não tem nada a ver com ser um Einstein moderno, é mais como eu imagino que deve ser solar quando você aprende um instrumento. Os lugares em comum que sua mente percorre, os caminhos que você traça… todos para aquele alívio antes de tudo se resolver.
E é sobre isso que é o Sudoku. “Versões de bolso” dessa coçada no cérebro. Não há por que resolver o teste do Einstein se você já sabe a resposta. Já no Sudoku, todos os que estão no seu nível atual de dificuldade sempre terão aquele momento em que você descobre algo que parece destravar o jogo inteiro. É uma delícia, de verdade.
Assisto a vídeos sobre livros geralmente enquanto faço alguns Sudokus. Sempre que a Emma, que é praticamente a única youtuber de livros que acompanho todos os vídeos, lança um novo, eu rapidamente o consumo com um jogo de Sudoku do lado. Hoje mais cedo assisti um vídeo da Página 99, um canal brasileiro que descobri no ano passado que possui um estilo de vídeos bem parecidos com o da canadense Emma, e também foi uma ótima tarefa relaxante (mas às vezes é difícil focar no Sudoku por conta de minha enorme queda na moça do canal).
Já cheguei a comprar jogos de Sudoku na Steam, acredite se quiser. Tem esse canal no Youtube maravilhoso que descobri há um tempo chamado Cracking the Cryptic. É um canal de dois senhores que resolvem puzzles de raciocínio como Sudokus ou palavras cruzadas ou até Wordle, e eles são os senhores mais fofos que já vi em minha vida. Eles possuem alguns jogos na Steam, provavelmente desenvolvidos por terceiros, com diferentes modos de Sudoku que custam por volta de dez reais. Recomendo os jogos e o canal, é incrível como a mente desses senhores funciona.
Por falar nisso, Sudoku tem diferentes modos, sabia disso? Tem um modo em que você não vê o quadro inteiro, apenas parte dele, por exemplo. Chama-se “fog of war”, acredito eu. Existe o Killer Sudoku também, e desse eu sei até demais. É um Sudoku onde no quadro existem caixas que podem abrigar diversos quadrados e acima da caixa está a soma dos números dentro dela. Divertidíssimo! Ah, e tem também…
Perdão, perdão. Isso não está indo a lugar nenhum mais. Me animei demais falando disso. Mas não posso evitar. Não consigo descrever a paz de acordar cedo e realizar um Sudoku ouvindo música enquanto o céu ainda está tímido em cor.
O meu intuito com esse texto é ir além do Sudoku ou do teste de Einstein que, a propósito, nem deve ter sido ele que fez. É falar sobre inteligências. Quero que quem quer que esteja lendo não se diminua. Você tem seus interesses e sobre os seus interesses eu posso dizer que você é muito inteligente. Suponho que algumas inteligências sejam mais “úteis” que outras, mais atraentes que outras, mas sempre haverá algum nível onde você pode se encontrar com um outro ser humano.
Um Sudoku ou qualquer coisa do tipo não é algo tão distante do que você consegue fazer agora. É paz, é inquietação. É um alívio após um desconforto. Você, até após sua morte, sempre será um humano, e enquanto você ter a habilidade de ser sensível de forma tão absurda, nunca deixe nenhuma ideia ou inteligência se encontrar acima de você. Acredito que tudo seja sobre emoção, no final das contas. E esse é um terreno inalcançável à lógica.
Sobre o texto: Finalmente escrevi algo em português. Meu último texto unicamente em português foi Um Dia do Servo Defunto, então faz um bom tempo. Pra ser honesto, traduzir os textos até do Nightporter é um esforço muito grande que consome muito do meu tempo para pouco reconhecimento (como disse outra vez, meus leitores são mais de fora, infelizmente). Pensei em traduzí-los pelo menos com algum AI, só para tê-los ali, mas além de ser algo que eu não gosto nem um pouco por poder alterar meu estilo demais, eu também acho que quem quisesse ler um texto traduzido por AI provavelmente já o traduziria sozinho de qualquer jeito.
Seria melhor deixá-los exclusivos para línguas diferentes, eu acho. Pelo menos, é o que posso fazer no momento em que escrever ainda não é algo que posso exclusivamente fazer como fonte de renda. Caso queira, adoraria saber se gostou do texto acima de alguma forma. Essas pequenas demonstrações movimentam os dedos que escrevem as palavras. Caso não consiga fazê-lo, jogue um Sudoku por mim.
Ouça a playlist do Nightporter de fevereiro abaixo.
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