Eu sempre fui um pouco supersticioso, mesmo que eu não goste sempre de admitir. Acho que já comentei por aqui algumas das vezes onde eu sempre parecia receber algum indicativo vindo do além sobre alguma ação. Após a morte de minha mãe, eu gostava de acreditar que ela estava nos controles do divino, também, conduzindo-me à algum lugar que eu deveria estar do qual eu não conseguia enxergar sozinho.
Meu irmão me diz de uma história antiga que minha mãe contava a ele, da qual acredito que ela não deve ter me contado (ou apenas esqueci). Quando éramos todos muito jovens e eu era apenas um bebê, minha mãe ainda morava perto o suficiente da irmã dela para visitar sua casa. Minha tia, segundo meu irmão que contara segundo minha mãe, mexia com “o oculto” naquela época. Sua casa era carregada de entidades e energias negativas pesadas por tudo que ela operava naquele tempo, enquanto nós ocupávamos o espaço dos vivos e pobres de energia.
Segundo diz a história, eu sempre chorava quando entrava naquela casa. Minha mãe nunca entendia o porquê; aparentemente, eu estava perfeitamente bem em um momento e ruim no outro. Só de chegar perto daquela casa o meu humor já descia para o submundo, e eu permanecia inquieto imitando o meu futuro da forma que podia. Minha mãe dizia que “eu conseguia sentir a energia daquela casa”. Talvez era só uma casa feia de se chorar por ela, por que não? Talvez eu só gostasse de chorar.
O que me lembro agora são histórias que já contei aqui. Uma garota, antiga companheira de classe, me dizendo que “viu uma energia brilhante e radiante vindo de mim” quando se reencontrou comigo, por exemplo. Às vezes, só estava um Sol de lascar nesse dia. Por que não? A pele negra às vezes pode rebater bastante a luz, não? E se a luz fosse algo romântico? Um modo de dizer criado por uma criança moderadamente esquisita? E se ela estivesse maluca — ora, só assim para a luz do romance cair em mim!
Mas honestamente, eu nunca entendi muito do que acontecia. Eu só confio cegamente pois admito que sim, sou cego. Eu utilizo dos olhos dos que amo para me mover e de seus ventos para me levar e debaixo da asa de todos meu império descansa e acorda. Eu acredito que forças de amor são tremendas, e que coletivamente entre os vivos e mortos eu não posso dizer se o norte de ontem é o mesmo de hoje. Eu mantenho em minha cabeça o mapa de meu corpo, que é a única espada que o homem de hoje pode erguer, e deixo que meu cavalo surja das estrelas.
Isso tudo para dizer: eu não acredito em muita coisa, mas eu não as creio não existentes.
Mas ontem eu recebi um sinal do qual não faço ideia do que significa. Eu estou meio cansado de todos esses sinais, então os documento nas próximas linhas.
É difícil se esquecer completamente de uma pessoa se ela sempre está presente. Você supera porque um dia acorda e percebe que é um dia novo, de repente. Você supera pois vai dormir e percebe que em nenhum momento de seu dia você pensou naquela pessoa; seu primeiro dia de seu novo tempo. Mas eu me irrito hoje pois em pequenos momentos sou lembrado do que não ocupa minha visão periférica; me irrito pois sou zombado pelos meus anjos guardiões.
Por onde começar com esses sinais?
Um bem forte foi o tarô. Me lembro, eu conversava com essa pessoa em 2024. A vida ocorreu e, de repente, não nos falamos mais depois de um tempo. Mas não conseguíamos nos separar então começamos um tal de vai e volta, onde conversávamos, parávamos e recomeçávamos. Algo que nunca contei pra ela foi o envolvimento do tarô nessa época.
Um dia, após terem se passado vários em que não conversávamos mais, eu recebi um reels no Instagram de tarô; mais clássico que isso só Adão e Eva, mas eu nunca havia recebido um antes. Em poucos minutos, era a única coisa que meu algoritmo me mostrava. Cada vez mais, as descrições ficavam mais específicas. “Uma garota de cor de cabelo tal…”, era ela! “… De certa altura…”, cada vez mais certeiro… “… Está muito arrependida e quer muito falar com você”. Eu ri muito, achei engraçado. Dizia como a pessoa estava muito querendo falar comigo, mas não sabia como. Que ela era uma pessoa muito orgulhosa e determinada, mas que iria me mandar uma mensagem em breve. Eu ri, mas não levei a sério.
Poucas horas depois, ela me mandou uma mensagem querendo conversar. Eu gelei, fiquei tão feliz. Não consigo me lembrar do conteúdo da conversa, mas certamente lembro que aquela migalha foi minha janta; estava dando voltas na Lua e voltando. Espero que ela não tenha notado…
Mas então, assim que terminamos a conversa, sem pretensão de continuá-la no dia seguinte, meu algoritmo no Instagram não mostrava absolutamente nada sobre tarô. Eu ficava parado, arrastando meu dedo para cima para que os vídeos passassem depressa, mas nenhum sobre alguma garota perdida que me amava aparecia. Ora, que ilusão dolorosa.
Mas então, acontecia de novo. Vários dias depois, os reels de tarô voltaram. Meu coração palpitou e bem em tempo ela mandou mensagem novamente. A tal garota orgulhosa que queria muito falar comigo aparecia, e assim que ela se despediu naquela noite, as moças das cartas sumiam com ela.
Esse comportamento se repetiu umas três ou quatro vezes, talvez mais. Um enxame de tarô. Conversa. Deserto. Até que acredito que chegamos no dia em que pedi a ela que nos afastássemos de vez. Após esse momento, nada de tarô. Por vários meses, nada. E a saudade para mim era a própria figura ausente, corpórea no meu leito de terra como se nevasse naquele deserto, como se eu espantasse o meu coração de gelo.
Então, em algum momento do ano seguinte, recebi vários reels de tarô. Mas ela não aparecia. A garota queria muito falar comigo, sim. Iria mandar uma mensagem amanhã, sim. Ela tinha cabelos castanhos e o escambal, sim. Mas nada. Senti como se as forças que operassem os sinais de tráfego da avenida de minha consciência estivessem pintando uma parede como um túnel e me pedindo para passar, como o coiote dos desenhos. Eu esperava em sono e ela aparecia em sonho, mas por onde meu olho se abria, a menção de seu nome eram pegadas na areia.
Talvez, pensando agora, essas tais forças quisessem que eu me desapegasse delas; queriam que eu não dependesse de seus sinais, ou pior: que eu mesmo fosse atrás da moça. Onde já se viu? Era pra elas ficarem do meu lado, não?
Não sei. Mas sei que ao passar do tempo, a menina se fazia ser esperada pelos sinais que eu recebia. Coisas pequenas. Coisas que eu inventava, também. Meu jeito de ainda poder sorrir por causa dela.
Consultei o tarô, inclusive. Profissionalmente! Não posso dizer o que ele disse, aparentemente; ele me disse que se eu contasse pra outras pessoas, poderia não acontecer mais. Mas nada do que eu recebia sobre ela fazia sentido. O que eu me tentava fazer crer durante aquele tempo difícil era de que ela era impossível; mas em pequenos passos eu era constantemente trazido de volta à ela, como se precisássemos fazer história sem olhos para ver no que daria. Todos os sinais apontavam para ela, mas eu precisava lembrá-los de que ela não me queria e de que esquizofrenia tem que ser tratada com um médico sério!
E então, partimos para os tempos atuais. Eu estava escrevendo o post da playlist mensal.
Eu tive um fevereiro esquisito e eterno; muito positivo, mas muito negativo. O começo foi elétrico, com várias coisas para me ocupar, incluindo o site. Mas conforme o tempo foi passando, mais pesado eu ficava. Cada vez mais isolado dos meus amigos eu me encontrava. Estava zangado com minha própria situação, mas deprimido demais para ser racional. Quando chegou a hora de escrever para o site esse post mensal, eu comecei a ser muito duro. Comecei a parecer frágil novamente, até instaurei uma regra de que não iria mais falar da tal garota; os posts mensais trancados para inscritos sendo a certificação de que ela nunca poderia lê-los de qualquer forma.
Então, de repente, a luz caiu.
Ela caiu por algumas horas e voltou.
Quando eu era mais novo, a luz caía com frequência em todas as casas que morei. Ficávamos um bom tempo sem luz, mas às vezes durava só algumas horas. Então, como uma criança supersticiosa, eu gostava de acreditar que a luz só voltaria se eu aprendesse alguma lição enquanto isso. Acreditava que a luz caía porque eu tinha que entender ou que eu precisava fazer algo, mas que eu teria que descobrir o que era antes que ela pudesse voltar.
Eu me animava, às vezes, mesmo sendo um completo desânimo. Eu queria muito saber o que eu precisava descobrir daquela vez. Pegava algum rádio, ouvia alguma música, olhava pras estrelas ou pra vela lentamente se acabando e pensava e pensava. Filosofava mais do que todos os gregos juntos, e inventava coisas que nem sabia se acreditava só pra saber se era aquele o motivo da luz ter acabado. Seja lá qual era a última coisa que me vinha a cabeça antes da luz voltar, aquela seria a lição mais valiosa da semana.
Virou uma forma de piada interna. Se a luz caía e eu escrevia uma música nova enquanto o tédio ocupava a escuridão da noite, eu dizia “tá, tá. Já escrevi a música. Pode voltar, luz”, e ela voltava no dia seguinte. Se a luz caía e eu estava escrevendo algo, eu pensava “tudo bem, tudo bem. Não vou escrever isso mais”, e a luz voltava um tempo depois. E foi isso que aconteceu dessa vez.
Eu estava tentando manter meu lugar no chão. Eu estava tentando seguir em frente. Mas é impossível, se você é louco o suficiente. É impossível, se você acredita em mágica. Apaguei tudo o que disse, mas ainda não entendo. Por que tudo me faz perdurar por mais tempo? Por que ela ainda está tão perto de mim, depois desse tempo todo? Quem não quer que eu a abandone? Por que logo naquele momento minha luz caiu? O que deve ter acontecido?
Nada mudou. Eu ainda estou preso nessa paixão, e essa mágica que me envolve me enrola tão profundamente que não consigo respirar. Mas quando busco ar, é hipnotizante; quando arrasto a vida para perto em desespero, quando me lembro de seu rosto, é eletricidade. E a mágica brinca com meus sentimentos, mas me faço de tolo para tentar ouvir o mundo pois sei que a voz dela fala através do que se move em silêncio na noite branca. Sei que ela se faz existir e permanecer porque ainda quer me contar algo, e eu não posso fingir que não viverei mais séculos até que eu o ouça. E acreditar que eu estava outrora tão irritadiço, tão impaciente, acreditando estar finalmente de costas para o mundo. Me lembrar dela, e me lembrar dessa mágica de toda a minha vida, me fez recordar além de minhas forças que ainda sou, sim, feito de amor.
Sobre o texto: Não sei dizer se estou estragando o gosto que fica após a leitura do texto pois não sei dizer se me fiz claro durante a sua escrita, mas eu não realmente acredito em sinais ou forças ou esse tipo de coisa. Quer dizer, eu gosto de acreditar. Sou realista, mas gosto de imaginar, como se ainda fosse criança de alguma forma. Acho bonito acreditar que quando morrer irei poder dar um abraço apertado em minha mãe, não só porque acreditar que nada acontecerá é muito deprimente, mas também porque é muito entediante. Nada muda com essas crenças pequenas; na verdade, elas só me vêm como um sorriso breve em meu rosto. Então as mantenho por perto, pois acho bonitinho. Mas não sou esquizofrênico, juro!!! Quer dizer… Só quando o assunto é essa garota aí; ela me dá todo tipo de maluquice junto.
Dedicarei brevemente esse texto à minha irmã, apenas para dizer que a amo muito. Não seria nada sem ela. O post mensal da playlist virá em breve; provavelmente o próximo.
Enquanto isso, ouça a playlist de Nightporter de março. Está uma bagunça no momento, mas em pouco tempo irei ajeitá-la melhor. Há uma nova playlist na aba de Playlists do site, também! Clique no botão no canto superior esquerdo ou aqui para checar.
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