[br] “time cannot do to ordinary things what we timelessly do to one another”

8–12 minutos

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About the text 1: The title is in english, but the text is in portuguese this time. A frase é de William H. Gass. Eu não consegui achar de quem é essa arte da capa, então se você souber, diga nos comentários.

Não gosto de pensar na vida como uma série de despedidas, mas é difícil vê-la como uma série de ingressões, de olás. Percebo a minha volta pessoas que não lembro de tê-las acolhido alguma vez; como se houvessem surgido organicamente pelo ar ao meu lado, atravessando a espontaneidade da própria existência. Lembro-me, com um certo brilho no olhar, de dizer que esse é um dos motivos para que eu desistisse completamente da ideia de voltar no tempo.

Quando minha mãe faleceu, algo que contei há poucas pessoas é que nos primeiros dias, quando eu ia dormir, eu fechava os olhos e pedia para alguma força divina fazer com que eu acordasse em 2012. 2012 seria o ano perfeito; cedo o suficiente para consertar tudo o que deu de errado na minha vida até então. Alertaria minha mãe de seu câncer a tempo de tratá-lo, não me despediria de alguns dos melhores amigos que já tive, aprenderia e prometia a não ser tão tímido e recluso quanto fui. Acima de tudo, eu só queria ver minha mãe mais uma vez, sem nada de sua doença à vista, feliz e pensando no futuro.

Eu fechava meus olhos e construía um plano na minha cabeça. Alertaria primeiro meu irmão; ele com certeza seria a pessoa que me ajudaria a orquestrar meus planos. O avisaria do câncer e do futuro, e juntos faríamos de tudo para o meu futuro presente ser consertado. Pensava na discussão que teria com ele, nas coisas que poderia falar para convencê-lo de que digo a verdade, de que sou do futuro. E então dormia.

Quando acordava no dia seguinte, estava tudo um pouco lento. Eu olhava em volta tentando saber se o quarto estava como era em 2012 ou não, mas sempre era difícil de saber no escuro. Então, eu tentava ouvir. Minha mãe sempre acordava antes de mim, então se ela estivesse acordada, estaria conversando com alguém na cozinha, que fica em frente ao meu quarto. Sempre que eu acordava eu ouvia alguma voz. Sempre eu queria que fosse a dela. Mas não era. Com tristeza, observava minha avó ou minha irmã passeando pelos corredores, no tempo presente desolado.

Como dito no texto anterior, eu não realmente acredito nessas coisas. Mas eu gosto de manter a mente ocupada, ainda mais quando sua imobilidade causa seus maiores estragos, como definitivamente foi o caso na época. A realidade se torna distante e larga, como uma frase que não quer sair da garganta. Você se torna pequeno, em um mundo que não é mais seu.

O luto é algo complicado. Porém, já vivi alguns lutos sem nunca alguém ter morrido. Falamos de despedidas hoje, de fantasmas vivos. Mas prometo ser um pouco diferente.

Já comentei aqui algumas vezes das pessoas que a vida afastou de mim, ou que eu as afastei da vida, como atores demitidos no fim da temporada. Lembro-me de uma da qual sua ausência se tornou uma morte antecipada; uma amiga de escola, minha melhor amiga. Tão grave foram as consequências de sua despedida, eu não podia comentar sobre ela com nenhum de meus amigos pelos anos seguintes. Tínhamos que fingir que ela havia falecido, mas além de sua morte aparecia uma total ausência de sua existência; como se ela nunca tivesse existido. E assim, eu a abandonei. Não fiquei de seu lado quando mais precisava de mim, e ambos planejamos morrer à distância do abraço do outro, que tanto confortara um dia.

Algumas vezes, pessoas morriam antecipadamente. Sinto que eu matei algumas de alguma forma, também. Faltei dois casamentos sem explicações, após anos de uma proximidade distante. Com o tempo, minha cabeça se interessou na ideia de morrer vivo, também. Não partir, mas ficar e não ser visto. Ser o fantasma da vida das pessoas, como algumas foram da minha. Meu corpo se unia ao corpo de minha casa, e o mundo era a própria realidade, uma cama feita por ninguém para outra pessoa dormir. No mar que eu construía de minha própria linguagem, ninguém sabia nadar. As pontes queimavam em seus brilhantes pontos de encontro, e todos que se equilibravam seus pés na terra firme eram pássaros e não sabiam. A vida passava a ser um objetivo secundário à não-vida, e a morte ocorria no sono.

Nos momentos antes de fechar os olhos para dormir, esperando que o futuro acontecesse quando eu abrisse os olhos de manhã, eu via a vida passar diante dos meus olhos. Me lembrava de pessoas que faziam o presente parecer o banho dos secos.

Recentemente, descobri que algo não muito bom aconteceu com alguém que eu gosto muito. Vou cortar os eufemismos; é a garota que assombra essa publicação desde sua existência.

Quando nos falávamos em 2024, criávamos nossa própria linguagem, como fazem as pessoas que se amam muito. Mas nos líamos bem demais, então era preciso criar uma linguagem criptografada para que pudéssemos nos esconder de nós mesmos enquanto nos mantíamos perto um do outro. Quando eu falava em línguas estranhas para ela, pedindo sua ajuda com um problema, era sempre sobre como eu gostava dela e como eu poderia diminuir a dor de cabeça que crescia a cada dia. Eu tentava fazer com que ela não entendesse que era sobre isso, mas até hoje não sei se consegui, já que na vez dela eu conseguia lê-la mais claramente. Em seus sinais, ela falava sobre seu relacionamento, minguante, mas posto no céu em luz como beleza geralmente emociona, movendo os seus mares inocentes.

Eu a disse bem cedo em nossa conversa sobre minha impossibilidade de discutir com ela os assuntos de seu relacionamento. Além de sempre ser algo difícil de ajudar estando à distância (algo que aprendi com o melhor amigo dela), eu também não gostava da ideia de ouvir seus sofrimentos sobre sua vida amorosa; de forma egoísta, talvez, eu não queria me machucar e não queria poder não ajudá-la da melhor forma. Me sinto triste pensando nisso sabendo do que acabou acontecendo. Sinto que eu era a pessoa que ela mais podia contar com seus problemas, e em meu egoísmo deixei ela se remoer no assunto que mais parecia afetá-la; novamente, abandonei uma amiga em seu momento mais sensível.

É estranho dizer isso porque mesmo na ausência dela, ela se fez presente em minha vida em momentos de despedida. Quando minha avó teve um mini-AVC no final de 2024, eu entrei em desespero. Me lembro bem. Foi completamente aterrorizante ver ela tão confusa e falando coisas sem sentido, e eu fiquei com um medo colossal de ter que me despedir dela tão repentinamente. Minha primeira sensação naquele momento de pânico, naquele momento de inquietude, foi chamar aquela garota. Mais cedo, no mesmo ano ela, sem saber, me ajudara com diversos mini-ataques de pânico que eu possuía na volta de ônibus da faculdade. Eu sabia que ela seria a pessoa que mais me acalmaria naquela hora.

Mas havíamos parado de nos falar naquela época. Não estávamos mais em termos tão positivos. Tive que lidar com a volatilidade daqueles tempos com minha família; a companhia deles era do que eu precisava, e eu sobrevivi à tudo aquilo.

E então, minha cachorra faleceu. 16 anos conosco, morreu dias depois de seu aniversário. Novamente, havia só uma pessoa com quem falar. Mas ainda estávamos distantes. Ela entendia do luto. Ela sabia o que dizer, mas eu não conseguia mais ouvir.

Meu maior problema agora é sentir que ela está passando por algo parecido. Confesso, não sei nada sobre relacionamentos. Mas sei de despedidas. Ela não me abandonou nem quando estávamos distantes; queria poder me fazer presente agora que ela deve estar tão para baixo. Mas como fazer algo tão complicado? Não me parece apropriado. Alguém que gostava romanticamente de você chegar perto, fazendo segundas intenções parecerem o ato de roubar itens de um túmulo. Eu a dou tempo? Eu nunca apareço? Mas e se ela estiver mal? E se eu puder fazer algo?

Deixar as pessoas morrerem é difícil. Elas aparecem em sonhos, elas aparecem em fotos antigas. Elas aparecem em traços de vida como pratos de comida de dias anteriores, como as estrelas que olhamos estacionárias no céu sendo explosões que aconteceram há muito tempo atrás. Não consigo decidir o que fazer, pois meu carinho se faz parecer um rastro de luz que segue um cometa, como uma palavra dita ontem e lembrada hoje. O amor que trazemos às nossas amizades, familiares e relacionamentos são, querendo ou não, estrelas e cometas imóveis. Não conseguimos tirar qualquer maresia que permanece anos depois de irmos à praia; nosso objetivo é nunca nos desfazermos dos trajes de banho e sungas. De forma feia e desequilibrada, eu queria poder acordar amanhã e ser a pessoa com quem os que amo possam contar. Queria poder curá-los de suas dores de cabeça, voltar no tempo e ir buscar seus corações de volta. Queria que chorar fosse uma coisa que fazemos só quando percebermos que voltar no tempo é impossível, mesmo se possível; nunca saberíamos como ter um a outro do jeito que temos. A ela, mesmo quando não nos temos, é impossível recriar nossa língua, nossa permanência em nossos momentos que mais tardamos a desaparecer. Eu apenas queria poder permanecer visível, ajudar não mais como uma memória. E que todos os pássaros em terra firme de outrora repousassem nos galhos da árvore de minha vida, e que quando minhas folhas murchassem por uma última vez, aí sim, serei obrigado a fazer seus mares se moverem à distância que os corpos que morrem sobrevivem.

Sobre o texto 2: O site teve muitas mudanças. Eu consegui um domínio próprio; ele é the-thief.blog agora. Ir pelo domínio antigo ainda funciona, então não se preocupe. Em cerca de um ano, o domínio provavelmente vai ter que mudar de novo, então espero que ainda estejam aqui quando acontecer.

Sinto que estamos voltando recentemente em vários assuntos já discutidos anteriormente no site. Acredito que faço isso pois sinto que consigo elaborá-los melhor agora, e por ter um fluxo maior de pessoas nos acompanhando. Mas caso isso incomode algum leitor mais antigo, não se preocupe. Tentarei sempre dar algum ar novo para qualquer assunto velho.

Depois de ter conseguido resolver tantas coisas do site e progredido em tantos textos que queria escrever, acredito que teremos uma pausa de alguns dias pro próximo post. Além disso, sei que digo isso com frequência, mas talvez esse seja um dos últimos textos focados exclusivamente nessa pessoa. Ou talvez não, não sei. Tudo depende do que acontecer quando conversarmos nos próximos dias.

Ouça a playlist de março do Nightporter!!! A música “Encontros e Despedidas” foi adicionada lá como um complemento desse post. Para mais playlists, cheque a aba de playlists no canto superior esquerdo do site.

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