[br] Um Dia do Servo Defunto (ou “algo meu morreu na Central do Brasil”)

19–28 minutos

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Retratos do que aconteceu comigo na última quarta, dia 3 de setembro de 2025.

Nesse dia, que era primo de segundo grau da chuva, o céu estava nublado e não era nada demais. Eu acordei às quatro da manhã desse dia. Quando abri os olhos e olhei para a fresta da porta, podia jurar ver um dragão coloridíssimo passar pelo corredor em frente ao meu quarto, seguido de minha vó andando atrás dele. Poucos segundos depois, levantei num pulo e abri a porta. Nenhum sinal de nenhum dragão colorido ou avó. Me dirigi ao meu quarto e liguei o computador; pretendia ficar acordado. Eu fui jogado às entranhas daquele dia com um sopro zumbi, empurrando o vento de minhas ações para o sul de minhas memórias. Seria um dia longo, e eu teria que ficar vivo e tomá-lo como dono, ou morreria afogado no sangue de meu tédio.

Por aqui está rolando uma promoção: cinema por 10 reais. Eu ia sozinho para assistir um filme que queria muito ver, mas minha irmã quis me acompanhar, e não recusei pois amo a companhia dela. Sempre tivemos uma conexão profunda; sinto que ela é a única pessoa diante da qual eu não preciso ser outra pessoa. Pelo menos, nos dias de hoje. Sinto que isso é recíproco. Não criamos eventos e personagens dentro do nosso mito. Quando estamos próximos, rimos e tomamos conta um do outro. Não forço risadas com ela, então às vezes até fico calado demais. Mas é confortável, como se houvessem palavras a serem entendidas no vácuo de nossa linguagem. Como se essa linguagem fosse infinita.

Saímos bem tarde para a sessão de uma hora, mas conseguimos chegar bem na hora que o filme começou, após os trailers. Deixo para falar do filme uma outra hora, mas tudo o que importa agora é que ele falava sobre relacionamentos. Após o filme, minha irmã me falou como seria legal se eu aparecesse com alguém. Eu disse a ela que não tenho o menor interesse disso no momento, e falei em meias-verdades. Sempre que identifico que vivi demais por alguém, sinto que preciso de um tempo para que eu possa entender minha real distância da vida externa, o real tamanho de meus braços que se estendem onde podem. Isso aconteceu algumas vezes, em nenhuma delas um relacionamento de verdade ocorreu. Eu, ao que me parecia, era o mestre dos dias dos outros; eu era um livro de biblioteca, eu era um filhote de vento.

O plano era pegar um segundo filme no mesmo dia, já que o ingresso estava tão barato, mas a próxima sessão seria às dezessete e minha irmã precisava estar na Ilha (onde moramos) para uma festa por volta desse horário. Falei para ela que veria o filme sozinho, então, e ela entendeu. Eu a disse que meu plano era ouvir uns áudios que um amigo meu havia me mandado e conversar com ele até a hora do filme. Acompanhei ela até o ponto de ônibus. Por lá, todos os ônibus estavam lotados, e acompanhavam pessoas com dias lotados que se espremiam em pé querendo ir pra casa. Minha irmã pegou um desses ônibus para a Central do Brasil, e eu voltei para o shopping, onde pretendia passar um tempo andando até o horário do filme. De formas que eu não poderia saber, meu dia começaria aqui.

Me confundi algumas vezes com as escadas; e quantas escadas. Eu me ocupava com minha própria cabeça enquanto parava em uma escada rolante e olhava para os lados. O ambiente estava meio vazio, mas os estranhos de certa forma me faziam companhia, como se pudesse contar com eles para que ocupassem, também, minha mente. Para que aquele meu momento pudesse ser um pouco menos solitário. Já no primeiro andar, lembro que fiz uma volta e de repente estava atrás de uma mulher, que me notou no meu caminho. Pensei em como ela devia estar se perguntando se a iria assaltar. Não sabia como parecer amigável estando de costas para alguém. Pensei que não ligasse tanto o motivo de ela achar que eu iria assaltá-la. Acho que cuidado não é algo ruim, pensei, e que você simplesmente não conseguiria saber o quão infeliz alguém pode ser em sua vida. É comum, não há problema. Ela subiu ao segundo andar e entrou em uma loja, enquanto eu continuei a subir.

Ao lado das escadas rolantes que eu subia havia um vidro enorme de onde você via a rua e os prédios, especificamente um prédio residencial de frente pro shopping. Lembrei, naquele momento, que eu e meus amigos notamos uma figura que sempre aparecia pelo horário do almoço. Um rapaz, jovem, sem camisa e carregando um violão sentava na janela do prédio, que era de frente para o shopping, e tocava seu instrumento quase todos os dias. O som não era ouvido, mas a mensagem era transmitida; ele buscava a moeda que o ser quente e íntimo dentro dos seres humanos tanto busca: atenção. O humano pode buscar o ouro, a razão e o conhecimento, mas alguns simplesmente precisam de atenção como precisam de água. A atenção agia como uma droga, e a droga escapava em seu sono. O rapaz não estava ali, já que já havia passado o horário do almoço. De repente, senti sua falta. Me perguntei se ele estava bem. Em minha profunda solidão disfarçada de solitude, misturei os conteúdos dos seres que me cercavam até em suas absências, buscando o afeto, ou talvez, a atenção, do mundo que dormia em mim naquele instante.

Em um momento, quando estava subindo — eu devia estar no quarto andar —, fiz um movimento súbito e senti que um homem, idoso e que carregava um celular em suas mãos, recolheu seu celular achando que eu iria correr com ele. Fiquei conflitado, então prontamente encenei uma discussão com ele em minha mente. Planejei os atos. Eu iria perguntar para ele “Como você acha que eu conseguiria roubar seu celular no quarto andar? Para onde eu saíria correndo?” Pensei que ele me responderia qualquer coisa e eu apenas repetiria exatamente o que eu falei independente do que ele dissesse, pois saberia que não havia resposta para o que eu perguntara. Minha frustração estaria completa naquela discussão sem sentido, e eu saíria andando enquanto ele ficaria parado naquele instante por um longo tempo. De repente, me toquei da realidade. Ele não devia ter reagido ao meu movimento súbito, poderia muito bem ter sido uma coincidência pois nem o vi direito. Acho, pensei, que menti anteriormente. Eu devo me afetar com essas coisas mais do que percebo.

Cheguei até o penúltimo andar, onde ficam as mesas da praça de alimentação. Me sentei e olhei em volta. Haviam mais pessoas do que achei que haveriam ali naquela hora. Senti falta da minha caderneta. Gostaria de estar me lembrando do jeito que o mundo estava naquele momento, pois ele nunca mais estaria daquela exata forma. Senti um luto idiota do mundo que percorria pelos meus olhos, enquanto a mesa que sentara parecia cada vez maior. Peguei meus fones e decidi ouvir os áudios que meu amigo havia me mandado.

Eu havia falado do meu coração pra ele. Ele entendeu e me deu palavras frias que eu precisava ouvir, pois estava sendo aquecido por um sentimento estrangeiro à ponto de ebulição. Estava cego com a dança dos anjos, doente e fraco em um sonho extenso e psicodélico, como um ser que não é e diz que se tem, mas não.

Ouvi as palavras de meu amigo. A verdade, disse à ele, era que eu nunca soube o jeito certo de passar pelo luto. Eu sempre sinto que sofro o luto de um jeito errado. O tempo passa após os eventos e você acha que ainda tem um corpo inteiro, mas você acha as folhas daquela árvore que cresceu dentro de você como pedaços de vidro de uma jarra quebrada. E de repente você sabe que isso ainda te incomoda, mesmo o tempo tendo passado. Você percebe que tens um morto-vivo dentro de ti, andando pelo milagre da insistência. Mas ele não fala contigo, não te responde, não te ama como você o ama. Ele apenas te observa, lendo seus escritos pelos seus próprios olhos, sentindo o mesmo que você mesmo o tempo tendo passado. É uma primeira-última morte, é um adeus que nunca foi dito. É um amor lindo de uma vida que não é sua.

Ele me lembrou que eu cheguei a reprovar em uma matéria na faculdade pelo quão depressivo eu fiquei com isso tudo semestre passado. Disse que eu precisava começar a deixar ir. Não sabia como fazê-lo; me convencer de que ela não estaria esperando por mim de alguma forma. Era eu que a esperava. Esperava sua mente chegar em um lugar sem mapa algum. Um lugar nebuloso, onde estaríamos cegos ao nosso encontro, incertos como crianças. Era essa a minha aventura, talvez. Como pude? Não sei. Mas precisava abandonar uma das melhores amigas que eu já tive, pois ela não estaria esperando por mim em um lugar distante para continuarmos de onde paramos; ela estaria estacionária nos sonhos de um virgem planeta, infinitamente vivendo a comodidade que é uma vida que faz sentido. Em meu mundo irracional, me senti pequeno. Queria visitá-la, mas não tenho traje espacial. Talvez nunca mais a veja. Quis chorar.

Olhei para os lados e pessoas tomavam algumas mesas próximas à mim. Percebi como a situação parecia: eu parecia impacientemente estar esperando uma outra pessoa aparecer, uma garota, talvez, que estava prestes a me dar um bolo naquele shopping. Sorri, mesmo que achei que não conseguisse. Era meio verdade, pensei. Eu estava esperando alguém aparecer. Parece que ela não apareceu. As coisas estavam como sempre estiveram, e o silêncio do meu tato me assombrava como um desejo de um doce, abertas eram as naves que eu precisava abandonar. O meu encontro deu errado, então, acho que eu também não queria mais ver filme algum. Estava triste demais, e eram todos filmes de comédia passando. Queria ir pra casa, voltar a me esconder. Esperar que ela apareça em meus sonhos de novo, onde falo o que quero falar, onde ela nunca responde e sempre desaparece.

Me levantei e andei para as escadas. Talvez estivesse tão solitário naquele momento que comecei a notar mais as pessoas em minha volta. Um casal de idosos. Um pai com sua filha. Um cachorro labrador. Aposto que para aquelas pessoas o mundo fazia um terrível sentido. Para mim, tudo estava borrado e cinza, misturando o cheiro de chuva com o cheiro de casa, me tirando de mim como restos são varridos de cima de uma mesa. Eu estava nesses restos, parte como um ponto de frase alguma, decidido a abandonar as partes tolas de mim mesmo.

Enquanto pensava um pouco na minha infância, uma mulher passou ao meu lado e lembrei de um pensamento que tive quando era muito jovem. Eu estava em meios com muitos adultos, mas as crianças da minha idade que me cercavam, assim como eu, não possuíam uma inocência completamente limpa. Todos os homens e garotos eram machistas e homofóbicos e comentavam das mulheres que passavam, dotados de um desejo que me assustava. Eles olhavam para as suas bundas e comentavam nos tamanhos, e todos riam. Eu lembro que eu não entendia por que eles eram tão rudes, talvez por sempre me conectar muito mais às mulheres, e ficava frustrado. Lembrei ali no shopping que, com pouquíssima idade, disse a mim mesmo: “Por que esses esquisitos ficam tão obcecados em ver bundas assim, na rua, assediando os outros? Por que eles só não vão pra casa e digitam “bunda.com” ou algo assim e vêem quantas bundas quiserem? Deixem elas em paz!” Não posso mentir: ri pra caralho. Aquele riso que você tem com um pensamento na rua e tem que disfarçar pois os outros vão te achar esquisito. Eu era muito bobo, mas eu tinha boas intenções. Lembro que também disse uma vez: “Por que zoam tanto homens que ficam com outros homens? Mulheres também ficam com homens e ninguém zoa elas.” Lembrei do meme “ele está um pouco confuso, mas pegou o espírito da coisa.” Comecei a me divertir lembrando dessas bobagens. Me achei fofo, o que não lembro se já me achei antes. Senti compaixão por mim mesmo. Vi que, mesmo com minha inocência tendo acabado muito cedo, eu ainda vivia naquela época em um mundo de morangos, e era bondoso porque eu não entendia por que alguém poderia ser mal. Eu não entendia o sofrimento, mesmo quando sofria. Mas a primeira coisa que eu entendi na vida foi solidão.

Vi um rapaz subindo a escada enquanto eu estava descendo outra, e ele parecia muito com um amigo meu. Pensei em como eu queria que fosse ele. Ele mora em outro estado, e eu sempre quis ter ele por perto. Eu o visitaria tanto. Eu abraçaria ele, beijaria ele todos os dias, compraria todos os presentes que ele quisesse mesmo que me faltasse dinheiro porque ele é uma das pessoas mais bondosas que já conheci. Eu sinto que pessoas bondosas como ele precisam ser recompensadas por serem como são, mesmo que elas não consigam controlar. Eu cresci o tendo ao meu lado, e quando o vejo sofrer parte meu coração em mil pedaços. Queria poder fazer algo quanto ao sofrimento dele. Queria que eu pudesse o esconder dos males do mundo, seguro em meu coração.

Então, percebi que o garoto subindo a escada era gay. “Agora parece ainda mais com ele!”, pensei. Então, me senti culpado por pensar uma piada homofóbica sem nem mesmo ter alguém para contá-la e pedi desculpas para o garoto mentalmente. Depois, ri mesmo assim da piada porque ainda não sou de ferro.

Percebi nesses momentos que meu cérebro estava tentando fazer o mesmo que eu faço com os outros quando vejo eles tristes, algo que faço desde criança. Meu cérebro estava tentando me contar piadas, me alegrar, me levantar de onde caí. Notei que eu realmente possuía compaixão comigo mesmo. Pelo menos por um breve momento, eu vi o que poderia fazer um amigo gostar de mim. E eu gostei de mim nessa experiência extracorpórea, e me dei sentido pelo sentido que senti que me dão. Logo, estava sozinho novamente.

Notei uma garota por entre as escadas. Ela era bonita. Parecia ser bondosa. Ela atravessou as lojas e não a vi mais. Queria vê-la por mais tempo. Ou será que não? Talvez, sim, eu visse em um rosto bonito a água da vida, limpa apenas porque vem de uma nascente que não me pertence. Me perguntei que histórias poderia dividir com ela, ou com qualquer um dos humanos que andavam pelo shopping. Como poderia fazer para ser amado por eles. Como poderia me perder em suas vidas como uma má ideia, terrivelmente pobre da moeda que minha alma pedia. Me senti sozinho como um pinguim que marcha para sua morte.

E então, criei asas. Sim, criei asas. Não como as de um pinguim. Asas brancas, com penas enormes. As pessoas me observaram e percebi que eu estava em seus corações de alguma forma. Atravessei pelo shopping e corri para o lado de fora. Mas percebi que nunca aprendi a voar. As pessoas me observavam pular e pular, mas zombavam de mim como se a gravidade também não fosse inimiga delas. Consegui um grande impulso para cima, mas bati a cabeça quando caí e quando me vi já estava em casa, sem asas, mas com um par de ingressos de um filme que eu não cheguei a ver.

Desculpa, desculpa. Isso tudo foi uma mentira. Eu não quis mentir, mas achei que a fantasia não poderia ser notada. Eu sei que digo que gosto da simplicidade, mas eu não sou um escritor muito corajoso. Tenho medo de ser lido como de ser esquecido, e me escondo na fantasia quando a vida é um pouco morta. Eu acho que eu também só queria pôr um fim nesse texto logo, sinto que me despi na sua frente e venho andando pelo caminho que te guio e conversando tão alheio que já não lembro onde deixei minhas roupas, e isso me dá um pouco de medo. O dia ainda não havia acabado e os minutos que restavam tentavam sons abertos de suas pequenas bocas, impossivelmente belos e separados, como doces em festa de criança.

Estava ficando tarde e os ônibus que vão até onde eu moro tem horários terríveis, mas sempre que saio de casa percebo que sinto saudades constantes do mundo. Não há nada que esteja ruim que não possa ficar pior, pensei, então decidi tornar minha volta mais difícil ficando pela zona sul por mais um tempo. Não estava no clima para nenhum filme, mas me veio repentinamente o desejo de comprar livros. Lembrei de uma livraria que fica na frente do cinema que eu mais já frequentei, perto de onde eu estava. Saí do shopping e andei até lá sem cerimônias.

No entanto, assim que saí pela porta, eu reconheci um rosto passando pela multidão perto dos sinais de trânsito. Um rosto familiar. Meu sangue era neve vermelha e minha boca tremia; eu não sabia o que fazer. De repente, essa pessoa se transformou em uma lebre e saiu pulando por entre os carros. Não pensei duas vezes. Corri como um louco. Não podia deixar ela sumir de vista.

Ela atravessou a rua, veloz com suas patas brancas. O sinal estava fechado, mas eu saí correndo mesmo assim. Quase fui atropelado, mas não importava. De repente, chegamos até alguns espaços onde haviam pessoas demais e vê-la era um desafio. Esbarrei em uma senhora, a pobre coitada quase caiu. Me virei e pedi desculpas, mas quando me virei novamente para encarar a lebre, o oceano de pessoas havia engolido sua presença. A lebre não estava mais ali, talvez tenha até virado uma pessoa novamente. Tentei identificar onde estava. Era a livraria.

Não vou o entediar mais do que já devo estar entediando: não comprei nada lá. Olhei diversos livros, mas todos eram muito caros. Livraria da zona sul, afinal. Mas estar naquele lugar me fez respirar um ar completamente limpo, como se o oxigênio das árvores sacrificadas para todas aquelas folhas estava em todas aquelas belíssimas palavras à minha volta, e eu respirava a vida de forma idiota, feliz em ser alimentado pela conversa que o mundo tem consigo mesmo. Disse isso ao meu amigo, com palavras menos enfeitadas, e ele concordou comigo. Ele pegou alguns livros de lá enquanto falávamos, inclusive um que eu com certeza vou tentar roubar dele depois. Ele olhou alguns livros sobre esculturas e me perguntou se eu tenho algum interesse que se difere ao dos que sempre conversamos sobre. Eu disse arquitetura. Me interessava de forma infernal, o potencial de amor a ser encontrado em uma estrutura. Ele quis saber mais. Por que arquitetura? Eu… Não sei se…

Espera, espera, espera. Isso está tudo errado. Meu amigo não estava lá comigo, eu estava sozinho. Desculpa, eu devo estar confundindo os dias. Por favor, ignore tudo o que disse anteriormente. Não trate de seus sentimentos como textos que já não estão aqui, pois estamos em outra página já, e o jornal de ontem já foi usado como lenha da sua fogueira há muito tempo. E não trabalhamos com cinzas, mesmo que nada seja destruído e tudo se transforme. Não sabemos quem somos como figuras gêmeas; somos praias sem pés.

Desculpa, sobre o que eu estou falando? Você sabe? Espero que não. Espero que eu tenha me escondido bem o suficiente para eu mesmo não me achar. No entanto, uma coisa infelizmente é verdade: o dia não tinha acabado ainda. Onde eu estava? Ah, sim. Eu estava no ônibus.

Sentado e olhando o mundo ser veloz em sua imobilidade através da janela, notei que havia um rapaz com um cabelo afro na minha frente. É o mesmo estilo que eu uso. Lembrei que esses dias estava na rua e um homem que vende esfihas perto da faculdade apontou pra mim, falou do meu cabelo e perguntou se “ninguém já tinha me parado na blitz”, algo a ver com policiais, por causa do cabelo. Não entendi porra nenhuma, mas sorri e disse que não. Recebo muitos comentários sobre meu cabelo na rua, mas havia um tempo que um não parecia algo negativo assim. Quando saímos de perto, meu amigo que estava comigo disse que isso era uma coisa que falavam antigamente nos tempos da ditadura. Havia essa impressão de que os policiais paravam muito pessoas com cabelos maiores. Me senti melhor, percebi que mesmo a interação sendo estranha, ele parecia só estar querendo puxar meu saco de forma amigável. Me repreendi por me sentir como um alienígena. Mas acho que foram as palavras. Uma estranha cordialidade, mas que me fazia parte do mundo.

Ainda pensando na minha impressão para o mundo exterior, eu notei que havia um grupo de garotas nas cadeiras mais pro começo do ônibus. Duas estavam nas primeiras cadeiras e duas estavam atrás delas, as da frente se viravam para falar com as amigas de trás. Eu me lembro de elas serem bonitas, mas eu não pude olhar muito os seus rostos, pois uma delas olhava atentamente para mim de longe. Toda vez que eu a olhava, ela estava sorrindo e olhando para mim, repousando sua atenção, a moeda da alma, em um pobre cansado. Essa não era a primeira vez que algo assim acontecia. Na verdade, no ônibus de ida do mesmo dia algo parecido aconteceu. Em minhas últimas saideiras, parecia haver algo novo em mim que atraía algum interesse externo. As pessoas falavam mais comigo, me olhavam mais. Eu nunca sabia como reagir, então não olhei ela de volta. Me senti confuso. Em meu currículo eu carregava inúmeras trocas de olhares e nenhuma ação, como se os olhos dessas mulheres fossem apenas espelhos, impossíveis de serem alcançados do lado de cá. Mas elas não eram impossíveis, eu só não sabia o que fazer. Ou sabia? Já fiz antes. Mas não queria. Mas por que? Porque eu estava esperando. Esperando o quê?

De repente, eu vi pela janela. A lebre. Estava parada na Central do Brasil, na parte à direita dos pontos de ônibus para a zona norte, encarando o enorme e brilhante prédio com o relógio externo. Eu saí imediatamente do ônibus. Corri até ela.

Eu olhei a lebre. Ela me notou — percebi pelo mexer de suas orelhas — mas continuou encarando o relógio. Eu a chamei. Nenhuma resposta. Eu disse que eu ainda amava ela. Era terminal, talvez para sempre; crônico caso de amor idiota. Nada saiu dela. Eu disse que eu estava esperando ela. Ela me olhou por um segundo, sem voz, como se perguntasse “esperando que ela fizesse o quê?”. Eu não sabia. Disse que achava que as coisas ainda poderiam ser novas de novo. Disse que ainda tinha a fé de que ela falaria que era minha, e eu não pensaria duas vezes e a teria em meus braços para sempre. Ela olhou para o relógio de novo. Eu disse que estava cansado. Disse que eu só poderia esperar por mais um tempo, e depois disso ela nunca mais me teria. Ela não respondeu. Disse que menti, disse que acho que poderia ficar naquele ponto de ônibus para sempre. Nenhuma voz. Disse a ela que se ela não me tiver em seus braços agora, nunca mais terá. Ela não se moveu. Chorei, pois perceber minha mentira me deixou fraco, com a criança em mim pedindo que sua alma fosse alimentada com a lama que fosse, para que eu sobrevivesse à próxima chuva de pregos.

De repente, percebi por que ela estava olhando para o relógio. Ela, também, estava esperando alguém. Esse alguém, no entanto, nunca seria eu, e se eu não cortasse o cordão umbilical daquele filhote ali, estaríamos eternamente no mesmo ponto de ônibus, esperando que o mundo girasse para onde ele nunca iria querer girar. Esperando que sejamos ouvidos por palavras que nunca digamos, esperando que sejamos completados quando já estamos transbordando. Esperando que nossas roupas entrem para dentro de nossos corpos, e que nossas identidades engulam nossos corações, que se repetem e que choram um dilúvio de mil vidas. Esperando não sermos atacados pela lança venenosa da realidade quando já nos despimos por completo para respirar de nossas fantasias. Ela estava esperando como uma criança perdida, enquanto eu esperava que ela me guiasse. Os mapas de nossos corpos indicavam caminhos tão próximos. Quis abraçar ela ali, concluir algo que eu não comecei. Mas o relógio indicava que a madrugada seria maior que meu desejo.

Subi no ônibus, que chegou rapidamente. Quando cheguei em casa, abracei minha vó com força. Disse que senti muita saudade dela naquele dia. Ela disse “obrigado”. Eu sorri, porque ela também não sabia reagir quando alguém dizia algo bondoso à ela. Talvez eu tenha puxado isso dela. Quando fui ao meu quarto, deitei na cama e olhei para o teto. Senti que deixei algo naquele ponto de ônibus. Senti que estava pronto para acordar, independente de qualquer espera. Os rios do relógio corriam sem violência contra a corrente do meu quente corpo, e o rosto dela era iluminado pelo Sol, seco e sóbrio, dividindo sua divindade com a própria vida e espalhando a sua beleza abandonada em todas as árvores que eu iria ver, até o fim de meu descanso.

Foto de capa: Edward William Searle – Golden wattle, Frenchs Forest, New South Wales, ca. 1927

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